Memórias, Memórias incontornáveis nos contornos de meu ser, Memórias de louvores perdidos, de rancores odiados, Memórias que alimentam a nossa alma, Memórias que fluem na nossa vida Sem guarda nem protecção Memórias perdidas mas perenes Memórias de reminiscências viventes Memórias de passados presentes Memórias inesquecíveis para sempre Memórias que o tempo espaça, Memórias inoportunas nos momentos exactos Na monção da vida o azo lhes pertence Memórias, Nosso fundamento com elas é feito.
Saía a Vénus do mar erguida e do arvoredo testemunha, Na sua inaudita valva, Superior e magnânime com suas esbeltas formas, Com cerúleas e escarlates saraças para a apadrinhar E ornatos decaídos do nebuloso, Estava ali, o tão desejado fruto, Ensombrando seus zéfiros e servos, Que a ela adoravam e a serviam eternamente Sem qualquer temor ou incerteza, Sabendo que defronte de suas almas estava, Aquela que nasçeu deificada Sob os poderes do Possante, Na mais puros e imaculados moldes, A fonte do Amor.
O meu Fado era amá-la e disso eu não fugia. Seu corpo entorneava-se à luz do crepúsculo que estava agora em diante de mim. Tentei escapar ao Amor, procurei nunca amar, mas, todos os dias aquela visão suprema da Natureza me fazia mudar de ideias. Haveria algo mais belo do que a Vénus de meu coração? Crei que não e se houver não é mulher, nem ser vivo. - O crepúsculo está a falar para si, não lhe responde?- perguntou ela. - Ele não irá certamente entender-me.- respondi eu. - Porquê?- inquiriu ela. - Porque ele nunca amou- voltei a responder. - Quem é a sua inspiração?- perguntou ela - A minha inspiração é aquela que vem ter comigo quando ninguém me estende a mão. Ela ficou um pouco atordoada com a minha resposta e de seguida disse: - O amor é assim, uma chama acesa na labareda do nosso coração. - Amo-te- disse finalmente eu. Ela olhou para mim e encostou sua boca à minha e ficamos eternamente sepultados no crepúsculo da vida.
O rosto de Spencer reflectia a sua dor desmedida por ter de terminar ali todo um sonho que era apenas viver. Tudo o que Spencer gostava tinha de abdicar, tudo o que queria fazer na vida era agora um desejo inútil, pois a sua única ambição era agora sobreviver nem que fosse para viver na miséria. Juntamente com ele estavam cerca de dezoito condenados e muito provvelmente uma maioria estava inocente tal como Spencer. O motivo de Spencer ser agora um "membro" do corredor da morte era simples: sabia algo sobre alguém muito influente e tencionava verbalizar todo os segredos desse homem poderoso nos media. Spencer pensava que no séc XXI já não existisse a opressão e a proibição da liberdade de expressão. Momentaneamente Spencer revivia toda a sua vida em bocados reminiscentes na sua cabeça. Pensava que estava ali por estar no momento errado à hora errada. Mas, alguém se dirigia para ele. Era uma figura humana, com traços bem delineados e que estava toldada num ar misterioso. A figura dirigia-se mesmo para ele e de um segundo para outro perguntou-lhe: - David Spencer? - Sim, sou eu- respondeu Spencer um pouco atarantado. - Estou aqui para o ajudar. A partir de agora tudo o que sabe diga-me, tudo o que sente diga-me, tudo o que faça. diga-me. Quem seria este homem que, chega ali e lhe pede para contar tudo o que ele faz, sente e sabe?
Oh milagre da natureza, Oh milagre da vida! Por entre os longos e esbeltos vales te ocultas Onde o néctar se une ao idílico numa diva junção, Onde as anis lágrimas correm pelos proeminentes olhos, Manchados pelo labutar severo de teus servos Que tudo fazem para que quem te enxergue te sinta, A ti, que lhes alimentas a posteridade, A ti, que albergas a talha do seixo por entre a calçada A ti, que espelhas a eternidade e amparas o fim, Tu, que te ergues dia a dia no alto de tua sumptuosidade, Meu amo e patrono, isto é quanto eu te venero, É toda a minha alma em ti, Santo da vida.
"Estou na ruína. Já nada faz sentido em mim, já não tenho missão neste universo. Tudo o que amo afasta-se de mim. Já ninguém quer saber quem sou ou quem fui. Nada do que fiz no passado importa agora neste meu negrume presente. E o futuro, esse, não deverá existir. Não sei como agir para ultrapassar esta mágoa. No meu horizonte está apenas uma solução: o desaparecimento natural. Passo pelos transeuntes e todos me parecem transcendentes e vou sentindo, vou afundando-me na minha decadência. Meu coração está abandonado, ao relento, e à mão de quem se quiser apoderar dele. Minha alma está debelada e já nem a sinto. Será suplicar muito à Providência que dê azo a que eu seja alguém?" Neste instante o homem prostra-se no encardo chão e fixa-se no céu esperando um sinal divino.
Sinto-te próxima, mas não alcanço Vejo o deleite de teu corpo, mas estou tolhido Quer almeje chegar a ti, não consigo, Quer me detenha, algo me arrasta, Minha alacridade não sabe se há-de revelar-se Minha cipreste não sabe se há-de fazer-se pungir Nada em mim é certo, nada em mim sabe o que compor Gostava de ser vero com meu pensamento, mas, Minha querença, tu sabes, Sabes de que sofre meu ser, Sabes o porquê de meu coração latejar desigual Mas não o dizes e resguardas-te em ti, Para que me faças pugnar por minha cura, Tu.
João sabia-o. Ele sabia que sua mãe tinha agora o seu semblante gravado no céu, mas não se conformava. Seu pai era agora o seu único amparo e João não podia mostrar-se débil, não podia sucumbir à mágoa da perda e, tinha de estar perene no coração de seu pai. Um dia, João ao vaguear no seu cinzento lar depara-se com seu pai a chorar, cabisbaixo no canto da sala. Aí, o mundo desabou sobre João. " Se meu pai, meu exemplo de vida, chora e cede, então como aguento eu isto"? João estava prestes a dar o passo rumo ao precipício mas, suportou e, num gesto de brio foi ter com seu pai dizendo-lhe: - Pai, amo-te. Passado poucos minutos, ambos se fixaram um no outro e, a João caí-lhe agora uma pequena lágrima de coragem pelo rosto. O pai, esse, olhava enternecido para seu filho e seu sucessor. Abraçaram-se.
Ando errante, meu amor, Por caminhos incertos, iluminado pela Lua, E é teu olhar de esperança, Aludindo-me a meu bem-querer Eu te achei meu consolo, Eu te achei, oh milagre de amor O carrascoso Fado ousou atar nossa paixão Mas, nossas almas não se apearam E venceram. Em ti está meu eu transformado, E meu amor é o gesto escrito no teu ser, Se presumires que minto, Brada aos céus e vê tua face figurada Podia-te escrever mais mas, Os melhores versos estão no silêncio de nossa paixão.
O fim de tudo, o princípio de nada, Será? Saber amar, néscio no ódio, Será? Glória aos sem vida, labéu nos seres, Será? Gostar de ninguém, repugnar alguém, Será? Fido à mácula, pérfido do bem, Será? Prezar o insignificante, desvalorizar o importante, Será? Concretizar o quimérico, impossibilitar o real, Será? Sou um bom animal, sou um mau homem, Será?
Logo cedo que te vi Enxerguei o que era o amor Soube querer e ser querido Soube deleitar-me com o desejo da vida Olhar para as estrelas e ver teu trejeito Quis a triste sorte nos apartar, Mas nem o Fado, Distancia nossos corações Corações arrebatados por latejar em conexo Um amor entenebrecido por uma quimera Uma utopia realizável pois quem se ama, não estremece Meu bem-querer, acode a mi No loco onde sempre estive e estarei No teu coração.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Rogo-me de paixão por ti, meu amor Ainda sinto a tua respiração em mim Ousas imaginar que não te amo, mas, Ouve o canto das sereias E receberás tua resposta Este é o amor urdido por nós O amor com que devaneámos Não o abjures, sente-o, Voltemos à volúpia de nossos corpos Deixemo-nos de zelos, de labéus injuriosos Recorramos a nosso amor, Às noites escusas de paixão ardente, Voltemos a amar.
Lamúria infernal, queixume infernal Por alma tua, que me deixa saudosista Saudosista de um amor escapulido Levado por ti, Mefistófeles Que não tens piedade de nenhum Nem de meu angelical amor Que te entregou a alma Sem olhar ao meio E para atingir um fim Amar-me para sempre.
Choro por ti e, Sou injuriado por chorar Só não chora quem não tem coração Só não chora quem não ama Se o chorar me faz menos homem, Não sei Sei que choro por causa de ti E isso, Nem todos os homens podem celebrar, Chorar por amor, Por amar alguém.
Pela primeira vez neste blogue deixo-vos com um poema que não é da minha autoria. Pedra Filosofal de António Gedeão, deixo-vos também com a versão musical. Pedra Filosofal
Será fogo, isto que eu penso? Será água, isto que eu sinto? Será um nada feito de tudo Será alma no espírito que se vai Será sangue esvaindo-se pela corrente Será coisa que aparece e se esfumaça Será pujança no vigor da vida Não sei se é o que será Sei que vai e vem Como alguém que não quer quem Sei, porém, quem é esse alguém Alguém que me tangera e segue para o fojo Alguém que eclode sem que se dê a ver Continuo, no entanto, sem saber o que será Mas sabendo quem é esse alguém.
Para ti, Para ti de sentimento sem finitude Para ti imaculada deusa Para ti que sem temor pugnas por meu lustre Para ti, primorosa, que mudas meu vápido mundo Para ti que desafias a Providência com teu despejo Para ti, de volúpia infinita, és o meu cirro, Meu cirro para a felicidade Para ti, que me enlevas com tua beleza Para ti, que és afeita a mim e não me deixas Para ti, impérfida mulher, impregno-me em ti Para ti que me gostas e inebrias meu mundo Para ti, que, se fosse cego vislumbrar-te-ia sempre em meu coração.
Lugar singelo, que nos rompe a alma Lugar onde tudo jubila quando está ensombrado Lugar santo onde se cometem heresias Lugar onde a monção é algo inoportuno Lugar malicioso que nos traça para o mágico Lugar desatinado que nos ajuíza Lugar açuceno coma mácula à espreita Lugar mártir onde nos tornamos ledos Lugar que mana uma agonia sumptuosa Lugar cirro que alardeia sua garbosidade Lugar pardo repleto de luz Lugar de ninguém que é tudo, Lugar teu.
A severa chegou em mim, Tal como antes sei amar Tal como antes devoto-te mais que a essência Tal como antes és a minha Natureza Teu pranto, a limpidez das humildes águas Tua beleza deificadora, do celeste vem Assedoso capilar de jubilosos campos Mudei e não sei mais voltar Queda-me a nostalgia A nostalgia de já teres sido o meu lastro Vénus minha, este é o meu remir Tal como antes, AMO-TE.
Vens sem rumo com teu merlim Com despudor de Quixote Almejando meu anoitecer Alardeando-te de meu devir Meu devir pelo teu pungimento Teu açuceno gesto É agora meu canudo Tua deleitosa figura É agora ensombrada por um labéu Um labéu que não se exorciza de meu coração Tudo nosso é delével Meu desígnio é rugir O eterno acabou em nós.
Vens sem rumo com teu merlim
Com despudor de Quixote
Almejando meu anoitecer
Alardeando-te de meu devir
Meu devir pelo teu pungimento
Teu açuceno gesto
É agora meu canudo
Tua deleitosa figura
É agora ensombrada por um labéu
Um labéu que não se exorciza de meu coração
Tudo nosso é delével
Meu desígnio é rugir
O eterno acabou em nós.
Garboso teu sorrir Teus olhos meu coração Coração que sobeja o latejar Coração que bate escarlate ao te sentir Sentimento que leva o poder da senhora lua Sentimento debuxado em ti Em ti, de açuceno amor Te expedes destainada em mim Manando teus desígnios Outurgando-me a sede de viver Amor, Leva-me para o eterno.
Lugar singelo que me rompe a alma Lugar onde tudo jubila quando está ensombrado Lugar santo onde se cometem heresias Lugar onde a monção é algo inopurtono Lugar mágico que nos traça para o nal Lugar desatinado que nos ajuíza Lugar açuceno com a mácula à espreita Lugar ledo onde nos tornamos sofredores Lugar que mana uma agonia sumptuosa Lugar cirro que alardeia a sua garbosidade Lugar pardo repleto de luz Lugar de ninguém que é de todos Lugar teu.
A severa chegou a mim, Tal como antes sei amar Tal como antes devoto-te mais que a essência Tal como antes és a minha natureza Teu pranto a limpidez das humildes águas Tua beleza deificadora do celeste vem Assedoso capilar de jubilosos campos Mudei e não sei mais voltar Queda-me a nostalgia, A nostalgia de já teres sido o meu lastro Vénus minha este é o meu remir, Tal como antes, amo-te.
Lembro-me do seu vulto Sua àspera mão passando meu semblante Sua voz almejando por mim Seu trépido carácter invadindo a aura A vaguidão da casa sem ele Pugno pelo seu retorno em vão Colarizo-me pela certeza da ida Porquê? A leveza de estarmos nesta vida Sabendo que temos de partir, Porquê? Não o ter contíguo a mim Aceno para sempre, Aceno para ti, Pai Santo
Hoje vi o Sol, O Sol flamejando no horizonte, O Sol resplandecendo os seres Quero tangerá-lo mas ele está eminente, Eminente no este do estrelato É um Sol obscuro no luar e avistado no clarão Transcende a nossa vivência Ergue-se no cume da existência, Desfaz-se no crepúsculo da réstia Este é o Sol que leva o poder da senhora Lua Sol egrégio do nosso começo Sol, esfera de girassol Sol esfera escarlate Sol, beleza fausta e crepuscular.
Estávamos ali como quem está no purgatório. Já não importava a nossa família, quem amámos, quem prezamos ou quem de nós gosta. O sangue esvaía-se do semblante dos meus companheiros e eu estava translúcido. Não suportava a dor em mim, por não esboçar nenhum movimento. Pranteava agora a pujança falecida de meus colegas. O inimigo não tinha escrúpulos e matava a sangue frio quem com ele pelejava. Senti que aquele era o meu ocaso e a última coisa que tinha dito à minha família foi: " Não preciso de vocês, nem de ninguém. Só preciso da guerra." Nestes meses últimos tinha-me tornado um ser áspero e severo com quem me rodeava. A guerra mutou-me. Ao ouvir esta palavra bélica remeto-me inexoravelmenete para o sangue, o sofrimento, a dor de seres inocentes, que por tiranos rancorosos, passaram a seres inerentes à guerra. A guerra compelia as pessoas envolventes em si. Só pensava na impressão deixada na minha pátria. Na sua profundidade, sabia que os meus mais próximos sentiam que eu estava transformado pela guerra. Mas mesmo assim, rugia-me no coração, eles não mereciam aquela minha incúria. Um fragor tirou-me do meu raciocínio. Um soldado tinha sido alvejado na perna e empenhava agora os músculos e ossos daquele ser. A guerra, meus ilustres, é o arrebatamento íntimo de tudo o que nela entra.
O eterno restou em mim Sem ti não sobeja o concreto Só incerteza abstracta Lobrigo tua ida, mas não a sarei Exaraste meu âmago amor Minha mística de ser foi mitigada por ti Alheaste-me de sentir o invisível E não discernir o visível Cindes meus sonhos e vais avante Desfaleçi de tudo e do nada, Sou uma réstia de ti.
Sigo o crepúsculo embevecido Pensando que aquele será o nosso ocaso E não voltaremos a amanhecer Pensamentos negrumes no meu ser Vaguidão abstracta do nada Não devia pensar no nada ao ver a vida da beleza Mas corrói-me a alma Seja talvez o meu íntimo Leva-me a tal tortuosidade Ressinto-me da avidez de fazer glória Estou a trespassar-me, Sou nada.
Nunca tinha visto nada assim. Seus traços esbeltos, seus olhos azuis fazendo recordar o marulhar das ondas, sua pele sedenta de amor, estava perante a beleza mais graciosa da existência. Era fim de tarde e o crepúsculo já mitigava o semblante dos transeuntes na rua. Tive receio em me pôr diante dela, mas roguei-me de ânimo e disse-lhe: - Como o ocaso é lindo... - Sim, eu venho cá todos os dias para o observar- referiu ela. - Infortunamente todos acabaremos assim, como o Sol, mas não nos levantaremos todos os amanhecer. - Isso é verdade, mas não podemos ter tanto negrume nos nossos pensamentos ao ver esta beleza da vida.- disse ela, orgulhosa de fazer parte daquela vida. Estava apaixonado e não sabia como agir. Pela primeira vez estava enamorado daquela maneira. Após longos minutos de diálogo, abraçá-mo-nos e ficamos a dançar unidos no crepúsculo.
Estava ali. Estava ali para confirmar que a imortalidade é uma utopia. Perante mim estava o meu pai, na sua decadência mais profunda. Estava deitado na cama, às portas do limiar da eternidade e eu já não podia fazer nada. O seu coração já quase não latejava, sua boca estava sedenta de vida, seus olhos estavam cada vez mais enclausurados, mas ainda permanecia o seu espírito pugnador. Suas mãos ao tocarem-me provocam um intrínseco sentimento em mim. Agora só me podia memoriar dos dias e luares que com ele passei. As nossas longas e acesas conversas resultantes das nossas personalidades diferentes que convergiam nos pontos mais importantes. Saberei viver sem a sua figura no meu destino? Terei de rumar à vida e descobrir as suas inquirições pelo meu próprio pensamento. Estava ali o meu exemplo de vida. O meu exemplo de vida estava a desaparecer de mim. Adormeceu.
São quimeras mil, Meus sonhos vagueando pelo breu da noite Sonhos que se esmorecem no oriente Sonhos que cindam o nosso pensamento Sonhos devassos no ocaso do horizonte Sonhos esparsos pelo escabroso tempo Sonhos que tornam hostil a realidade Sonhos amarguradores no desejo de ter Fazem do acerbo algo deificador Sonhos variados pelos existentes Sonhos sonhados pela nossa transcendência Sonhos conceptores da existência.
Faço-me sentir nos sobejos do teu coração Como quem ama a saudade De longe vais, mas de perto não vens Vou fazendo Imaginando no crepúsculo da tua partida Quero-te tanto Agora adormecerei nos braços da tua ida Amargando-te fiz-te luzir Alvitro pelo teu retorno Estou inacabado No oriente já rumas Mas, adverso ao destino, Quero estar contigo num momento chamado sempre.
Sento-me no sofá destroçado pelas memórias que fui tendo pelo passar dos estios. Aquela casa no rio onde passava os meus dias e noites de árduo calor, ensombreado pela brisa tortuosa das águas daquele rio que passava na vanguarda daquela casa. Naquele sofá passaram gerações da minha genealogia. Aquele mesmo sofá que abarcara as mágoas de todos os meus ascendentes. A melancolia pairava nas divisões daquela casa. Agora era eu que tinha de curiar daquela humilde casa, após o adormecimento do meu pai e posteriormente da minha mãe. As minhas reminiscências daquela casa remetiam-me, inexoravelmente, para as lágrimas escorridas do meu pai e da minha mãe ali mesmo, naquela casa, naquele sofá. Aquela era uma casa escarlate, com o seu coração instalado na sala de estar, com 3 quartos nostálgicos das minhas recordações. Por fora corria um rio de águas calmas onde luzia o sol e onde resplandecia o luar da noite. Após este dia sei que algo me fica: o essencial é invisível aos olhos.
Párias são aqueles que não a curiam Pugnas lancinantes e pungentes trespassadas para a fruir Todos aqueles que a granjeiam são luzidos por ela Aqueles que a impugnam são ensombrados pelo negrume Assaz Liberdade para se tornar se lassa Dotada do fragor que sucumbe os enclausuradores Concomitante à vanguarda do Mundo Perene no âmago de cada ser No amanhã poderá ser uma reminiscência Teremos que a designar como um dogma, hoje.
Sento-me na cadeira da vida a falar monologamente sobre as inquirições do ser. Começo a pensar no que me induz a escrever esta mesma prosa: a liberdade. A Liberdade é algo que todos alvitram desde o seu brotar; a liberdade de se poder erguer e caminhar, a liberdade de ir para a escola, a liberdade de se casar, a liberdade de viver para a morte. Esta mesma liberdade que ainda, hodiernamente, pugna em não luzir para alguns. Uma Liberdade que, se não for assazmente curiada torna-se lassa, uma liberdade que deveria ser um dogma. Não sou douto o suficiente para saber com minúcia o porquê dos transeundos não se importarem com esta questão. A Liberdade não pode ter o desígnio de uma mera monção, tem de ser granjeada para ser fruida nos seus termos certos. Quem abusa ou não faz usufruto da Liberdade não passa de um pária, um Homem insensível à sobrevivência da existência. A Liberdade não se pode desenvolver como uma reminiscência. É algo perene no âmago de casa ser.
Meu Mundo é parco, Parco do ser e do infinito É impiedoso para quem lá dentro está É escarlate como o ocaso do sol, É negro como a escuridão do silêncio Faz de mim um ser inacabado Faz de mim um ser pleno Transparece, embrenha, impregna Sabe jubilar Sabe ser obscuro e penoso Faz e torna o rumo diverso É o meu Mundo É o meu ínfimo.
Saudade, Escrutina a nossa alma Incessa-nos o espírito Sentimento que acerba o ser Sentimento que nos matura Faz-nos lacrimejar Faz-nos sentir Impele-nos para a vida Ultrapassa os limites do horizonte É a derradeira conexão com o ínfimo, A Saudade é o crepúsculo do coração.
Sento-me na penumbra do horizonte Escrevo no incerto e em direcção ao nada Açulando meu sentido eloquente Embrenho-me na solidão das palavras E na impregnação da escrita Vislumbro algo belo Começo a ficar imparado Esta beleza emana um luzente olhar Exala um odor aromático Esta beleza é a minha alma deificadora É esta beleza que me inspira Beleza que é bela e imponete, Beleza rara.
Verdade, Verdade que dói quando clamada Verdade oculta quando não alvitrada Verdade impiedosa no fundo do ser Verdade que emudece a mentira Verdade precisa para a nossa existência Verdade que ruge na alma Verdade que se assoma na vida, Verdade mãe do infinito Verdade protectora do Universo.
Cuida do meu ser Não deixes que eu me incurie Nesta instância frágil da minha existência Esta existência é uma passagem para a morte A cada tempo que passa sinto-te mais longe Amor, para sempre estarás no meu coração Vá eu para onde for Este é o meu tempo de partir, Adormeci.
Amo-te Não podemos vetar o nosso amor Um amor por vezes acerbo E outras vezes fulgurante Um amor que sibila por onde passa Um amor incessante e fauno Amor que nos faz luzir e sentir Ele é a nossa essência Curiemos o nosso amor, Não o deixemos ter um fim, Ama-me.
Conheço-te bem, Teus olhos frágeis, tua sensibilidade, teus ímpetos Também me conheces bem Meus feitios, meus traços, meus calos Serei o conceptor dos seres que guarneceres Sei o que és, sei os teus sonhos Irrompe por mim teus sentimentos Eu impelar-te-ei para mim Deusa do meu coração Faz-me ser.
Não lacrimejes, Sei que vou, mas chegarei a voltar Não quero que deixes de ser essa menina venusta Agora terei de partir Vislumbro o teu semblante pranteando Sabes que estás perene em mim, Regozija-me com o teu sorriso É o que te alvitro Mas no meu coração, algo mais vai, Saudade.
Viajo, Pelos mares da saudade escabrosos, Para trás deixo os meus E comigo vão os mais temerários Navego pelas ondas emudecidas Entre os sons sepulcrais dos rochedos Impreco por novas conquistas E por novos terrenos Este é o meu Fado, Servir a ocidental praia lusitana.
Vem para mim, Ofusca-me com o teu sorriso humilde E com os teus tímidos olhos Deixa-me tocar nessa tua pele opulenta de amor Sei que te faço amargar Mas sou um sonhador Se fores não serei mais Se ficares serei melhor Só alvitro uma coisa, Gosta de mim.
Morte, que palavra impiedosa! Atroz, mordaz, displicente, obscura, Palavras para descrever uma palavra, Mas verdadeiramente há alguém que saiba o que é a Morte? Como é possível uma palavra destas aparecer nas minhas odes? Normalmente num canto lírico não aparecem palavras destas, Estarei-me a tornar numa pessoa psicologicamente afectada? Como é possível? Eu devia estar a falar de amor, adolescência, puberdade… Talvez porque seja um tema falado pelos alheios, Um tema que intriga, um tema que ninguém gosta de conhecer profundamente, Mas que toda a gente sabe que será o seu Fado, Morte, o que será “isso”? Vou tentar descobrir e quando a encontrar eu digo…
Vem, vamos deixar-nos envolver, Vamos glorificar o amor e perpetua-lo, Deixa que o teu corpo se envolva no meu, Não temas, por vezes o amor é atroz. Não serei demasiado voraz, nem demasiado leviano Também receio, também ambiciono Sei quais são os limites, Mas, amor, Vamos acontecer.
Amor, vem, junta o teu corpo ao meu, Deixa que a tua voz lânguida ecoe por mim, Deixa que se veja o pranto caindo da tua face. Não deixes que os transeuntes te olhem assim Guarda para ti no mais recôndito lugar. Não fragilizes, nem mostres veemência, Porém com algo podes tu contar sempre, Eu estou aqui.
- Sabes pai, ás vezes sinto falta da mãe. Sinto falta da sua mão meiga passar-me pelo rosto, sinto falta dos seus beijos delicados, sinto falta do seu júbilo, sinto falta... - Calma, filho, calma! - Pai! Abraça-me! Abraça-me por favor! Após longos minutos de envolvência, Jõao volta a falar: - Pai, porque é que a vida é tão dura? Dura com toda a gente? - A vida é dura para que possamos encontrar a nossa felicidade. - Mas então, porque é que a felicidade é tão difícil? Porque é que temos de passar por tantos calvários para a encontrar? Fez-se um silêncio na sala. Lá fora ainda restava alguma geada matinal. As conversas entre pai e filho eram sempre emocionais. - Porque é que há pobreza e fome no mundo? Eu queria tanto ajudar as pessoas, pai. Porqué é que há morte? - Filho, a morte é algo obscuro, é o nosso Fado. João saíra de casa e ao cambalear pela rua, encontra um vagabundo e opta por ir ter com ele: - Desculpe, porque é que você é pobre e passa fome? - Sabes, eu estou assim porque não soube mourejar a vida. Agora vai gaiato, não ligues a alguém que não pode fazer nada pela tua vida, eu só a vou estragar... Uma lágrima de pesar caía agora sobre o rosto envelhecido do vagabundo. CONTINUA.