segunda-feira, 4 de maio de 2009

O Vagar dos Dias


O rosto envelhecido fazia sentir o enorme e humilhante cheiro da derrota. Aquela tísica figura já não tinha mais para dar. Deu tudo enquanto viveu e estava ali, prostrado de miséria à espera de um "obrigado" que o fizesse descansar eternamente. As pessoas, indiferentes ao seu redor, seguem a sua mesquinha vida nunca pensando que o seu futuro está ali. A podridão daquele corpo frustra todas as ideias desta rude sociedade.
A boca, seca como o fervilhar do calor, já não mais diz as lengalengas que uma vida ajudou a trautear.
Os olhos, fechados e sem esperança, observam a decadência do Mundo à sua volta.
A pele, rugosa e sacrificada pelo labor, escama-se à luz da indiferença de quem passa.
As mãos, ossudas e disformes, tangem o chão derretido pelos passos da multidão.
Mas, com o brio de quem nunca desistiu, o velho abre os olhos e eu, fixado naquele milagre da natureza, afago-lhe a mão e, escorrendo uma lágrima de insignificância por mim, o velho diz-me uma palavra que deixa transparecer toda a filosofia daquele ser:
-Obrigado.
E o velho segue o seu caminho edénico rumo à última estação.