sexta-feira, 19 de março de 2010

In(Felicidade)


A felicidade não cabe em mim
Não gosto da excitação humana. É tétrico.
Não gosto daquele contentamento ingénuo. É falso.
Mais vale a infelicidade.

Essa é verdadeira. Não a podemos fingir. Nem enganar.
Ela acaba por ser a solução para nós, homens.
Nunca a felicidade é verdadeira e pura.
É sempre acompanhada pela nossa fantasia.

A fantasia de estarmos no caminho certo,
Para depois nos fazer pensar que atingimos a infelicidade.
A fantasia de estarmos felizes e de, ciclicamente,
Acabarmos por nos cruzar com a infelicidade.
Mas é fantasia pois não é a felicidade que nos leva à infelicidade.

É ela que devemos procurar.
Ela nos levará ao sucesso e à purificação.
Ela transformar-nos-á em seres resistentes e assertivos.
Ela chegará e vencerá tudo o que em nós quiser haver.

Assim, não deve existir felicidade. É uma mentira.
É apenas uma metamorfose que nos levará a infelicidade.
Não se deixem enganar. Quando se sentirem felizes,
Estão errados. Irão ter à infelicidade.
Significará que estão longe da certeza.
Pois a felicidade é a mais pura das ingenuidades
E a mais demente das ilusões.

Espanhola


Eras tu, latina de origem e habilidosa com a beleza
Tinhas o sangue quente das ibérias e o encantamento das castanholas.
Juntamos ali a península.
Juntamos os descobrimentos e a guerra civil de Picasso
Fomos a fronteira que separa os pedaços de terra.
Fomos Colombo espanhol e português.

Queria rever-te.
Queria voltar a sentir o calor da tua pele.
Queria reviver a sensação de ser enfeitiçado pelo estrangeiro.
Foi fugaz, foi efémero, foi mistério.

Talvez pelo mistério, talvez pela fugacidade, foi místico.

É a tua volúpia caliente que retenho no meu corpo.
É a sensação sinuosa daquele momento que ainda sinto.
É o possuir desenfreado de ti e de mim, em constante troca.
É o desejo de me querer extravasar.

Precisei daquele instante.
Precisei de me sentir vivo.
E foi em ti, espanhola, que espelhei o meu querer.
Talvez nunca te vá a encontrar outra vez, mas és tu que em mim ficará,
Quando me recordar desse país que é o teu ser.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Aos Que Não Acreditam (Os Crentes)


A vós que querem que exista. Não existe.
Sem ambição, sem júbilo, sem desejo.
Só tristeza. É isso que vos reserva.
Isso e não conseguirem nada mais do que ignorância.

Libertem-se desse fardo. Nada vos irá acontecer.
Libertem-se de entregar a alma por tostões.
Libertem-se da obrigação de agradecer a não sei quem.
Querem felicidade? Essa, é vossa, de mais ninguém.

Admiram algo que não é algo.
Então que vida querem? A mesquinha vida
De quem está algemado?
E nem acreditam, nem sabem porque existe.

Fé? Tudo bem, em mim, mais nada.
Mais ninguém me dará fé que não consiga atingir.
Andam para aqui e para ali, sem raciocínio.
Vós sois irracionais. Sois apenas seres falantes.

E vão sendo usurpados da vossa energia.
Usurpados por aqueles que se fazem passar de crentes
E num instante se transformam em salteadores.
É a eles que pagam a vossa crença na inexistência.
E só eles lucram. Vocês fazem-se de apatetados.

No fundo falam para a atmosfera.
E esperam resposta da atmosfera?
Ela tal como vocês vagueia sem nexo e causalidade.
Que ciência é a vossa de serem quase robots?
Que desejo é esse de se transcenderem para o que não é transcendente?
Nada, apenas nada.

Vocês São Diferentes


Não tenham pena. Não.
Não tenham misericórdia de mim.
É o que menos quero.
O que quero é que sintam que sou como vós.

Sou como vós mas sem a indiferença.
Apenas com a diferença que me tentam incutir.
Deixem-se de falsos moralismos para se elevarem a um fútil patamar.
Deixem de tentar ser quem não são, e de em mim colocarem
O que não sou.

Não façam isso a vocês.
Não queiram ser assim: fazer de mim um grande momento da vossa vida.
Apenas porque não a conseguem viver.
Não transfiram nada para aqui. Nem para ali.

Se estou assim foi porque quis.
E não o quis para terem dó de mim .
Fi-lo para ser diferente. E como é estranho:
Tentei ser diferente na mente, mas chamaram-me demente.
Agora que me distingo em tudo menos pela mente, têm pena.
Aliás, se há algo que desleixei (graças a vocês) foi isso:
A mente.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Prisão Em Mim


Está escuro
À volta, só negrume
Tudo tão escondido
E não sei onde estou.

Tento descobrir o meu redor
E sentir a escuridão que me assola
Tento saber algo mais que a cegueira
Que se instalou sem saber porquê.

Estou num cubo e apalpo-o
Tento descobrir a saída. Não consigo.
É a cárcere a manifestar-se.
E não há guarda para me libertar.

Não sei como aqui vim dar.
Estava inconsciente ou consciente. Não sei.
Não há rasto, nem sinais, nem pistas.
Só solidão escura. E eu.

Quando sairei daqui? Nunca, talvez.
Ou amanhã. Ou quando se acender a luz.
Em pouco tempo já me habituei.
Já me habituei a este isolamento.

Ouço agora uma voz.
E a única certeza que tenho é o seu som.
Virá talvez do exterior que ambiciono.
Já não ouço a voz. Desapareceu.
Terá desaparecido comigo. Será isto a alma?
E o físico? Desagregou-se? Quando se juntarão?
Talvez naquele dia em que o cubo se esvanecer.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Matéria


Somos carne, nada mais.
Não somos alma nem sentimentos.
Tudo isso é pensamento.

Somos matéria.
A nossa imatéria é racional.
Emoções, coração, essência.
Tudo isso é imaginação.

Por sermos físicos, não temos espírito.
Isso é para aqueles que não respiram.
Aqueles que vivem não podem ter espírito.
Só podem ter cérebro e as suas acções.

Não se fiem portanto no espírito
Esse é um refúgio que damos às lápides
É encantador ter emoções e sermos imateriais.
É encantador mas irreal
Agarrem-se ao visível e objectivo.


Deixemos as concepções inexistentes
Deixem-se da alma e dos sentimentos
Deixem o paraíso e o inferno.
Sejam matéria.