quarta-feira, 26 de maio de 2010

Loucura e Tela


Não a tela toda, não.
Só metade. Metade da metafísica.
Riscos abstractos e sem nexo.

Ai a loucura abstracta! Como é bela!
Saber que somos loucos, disfarçando o pensamento.
Saber que não tem sentido
E em nós estar todo o sentido.

Não a tela toda, não.
Só um pedaço, menor que metade da metafísica.
Preenchimento de algo, não querendo nada.
Só preencher.

Como se molda a loucura abstracta
À loucura de não querer nada!
Iguais? Não.
A abstracta transmite riscos e figuras escondidas.
A de não querer nada é do ser, não ser nada.

Não a tela toda, não.
Agora nem um pedaço. Só loucura.
Loucura da loucura.

Loucura da loucura é a purificação da loucura.
É absorver a abstracta e o nada.
E depois juntá-los.
O resultado? Só loucura e metafísica.
Pois toda a loucura é um pensamento vadio.

Toda a tela, sim.
Loucura e metafísica em pleno.
Sem pedaços nem metades.
Só o auge do ser humano. Ser e loucura.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Orquestra


A forma dá azo às linhas onduladas
Num misto de sonho e fantasia.
As barras aparecem e comunicam
Os sentimentos de euforia.

O cordão une o que separa o espaço,
Mostrando a superfície,
Pousada num triângulo de força
Que suporta toda a esperança.

A forma precisa da superfície.
A linha negra avança.
O muro de esperança vai impedindo
O avanço da escuridão.

E é o tracejado. E é a linha.
É o deslizar do destino.
É a sinfonia da mente e da prática
Em harmonia com pontos e riscos.
Tudo contra o negro e o vazio.
É a orquestra do desenho.

sábado, 8 de maio de 2010

A Guerra


Estávamos ali como quem estava no purgatório. Já não importava a família, quem amávamos ou quem simplesmente gostávamos.
O sangue esvaía-se do semblante dos meus companheiros e eu estava translúcido. Não suportava a dor em mim por não esboçar nenhum movimento. Pranteava agora a pujança falecida dos meus colegas.
O inimigo não tinha escrúpulos, (afinal quem ali tinha escrúpulos?)e matava a sangue frio quem a ele se aproximasse.
Senti que aquele era o meu ocaso e a última coisa que tinha dito à minha família tinha sido: "Não preciso de vocês, nem de ninguém. Preciso apenas da guerra."
Nestes meses últimos tinha-me tornado num ser áspero e severo com quem me rodeava. Eu não era aquele nem era da minha família, era da guerra. Ao ouvir esta palavra remeto-me inexoravelmente para o sangue, o sofrimento, a dor de seres que combatem sem saberem porquê que, por tiranos rancorosos, prescindem de qualquer hipótese de futuro. A guerra compele as pessoas que nela entram.
Só pensava na impressão que tinha deixado em Portugal. Um fragor tirou-me aquele raciocínio. Uma bala atravessara a perna de um soldado e punha a descoberto os músculos e ossos daquele ser.
A guerra, meus egrégios, não é mais do que isto. Músculos e ossos a serem alvejados. Nada mais. Sem pessoas, nem almas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Ler Ao Serão Na Dinamaca


A porta tombou e iluminou-se
O homem caiu sem saber
A noite era dia
E as casas sapatilhas.

Os olhos escorregavam pela cara
Os lábios já lá não estavam.
As paredes abriam-se de par em par
A voz era gigante e não se ouvia.

Ondulavam os pensamentos
Sonhando a realidade
E afastados da cabeça
Pousada no topo de um prédio.

Os dedos tocam o ar
Sólido com a respiração
Que emana ofegantes luzes
Nuas de sentimento, vestidas de sensação.

O tempo é nulo,
As horas são tijolos,
Os segundos mármore.
Ao meu lado, um círculo grande e redondo.
É persuasivo. É assustador.
Tentador também. Roço-lhe na pele.
Livrei-me dele. Estou são e salvo.

Vai subindo o real pela escada da mente
Desço, passo a passo, medo a medo
Evitando a queda fatal
Que me levaria ao apocalipse.

Sem sentimentos, nem corpo.
Só nada. Aterrei.
Um dia volto.