domingo, 28 de novembro de 2010

Errar


Não fui eu, ali.
Não fui quem querias que tivesse sido.
Nunca consegui ser nada.
Iludi-te com a minha desilusão.

Assisti a um outro eu. Não gostei.
Fui um repugnante selvagem.
Não fui os princípios de toda a vida.
Que fiz eu?

Onde estava?
Aproveitei-me de algo que não era meu.
Não resisti aos meus instintos.
Fiz o erro de toda uma vida.

Saí de rastos daquele eu.
E agora que voltei a mim, enojo-me.
Merecia a solidão eterna.
A consciência daquele acto é ainda mais execrável.

Nem valem as desculpas.
Nem vale ter sido de igual modo voluntário.
Nem vale que tu tenhas gostado.
O que vale é que não valho nada.
Absolutamente nada.
Uma porcaria de nada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Barcelona



Barcelona do meu pais.
Catedral do meu coração.
Sagrada Família da minha alma.
Barcelona do meu amor.

Em ti, Gaudi. Respiro.
Respiro toda a sua obra,
Todo o seu sentimento por ti,
Barcelona de arquitectura.

És as ruas por onde te escondes.
És as pessoas que te descobrem.
És a chuva e o sol que em ti pousa.
És uma, representando todas.

É a ti que escrevo,
É em ti que sou eu.
Só tu, Barcelona do meu olhar,
Me farás jurar por algo eternidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Perfeição



Não és paixão, não és amor.
Nem sequer amor platónico.
Nem és todo o meu pensamento sequer.
És simplesmente tu e os teus traços perfeitos.

Pode parecer estranha esta minha fixação.
Mas faz-me bem ver-te. Faz-me bem sentir-te seja de que forma.
Massaja-me a alma e eleva-me a um lugar só meu.
Dá sentido à minha ideia de mulher.

Mas não quero nada desse teu sítio.
Não quero invadir isso por onde andas.
Só preciso de te observar. De aconchegar os olhos.
Só preciso que me dês esse privilégio. Mesmo que não saibas.

Dá-me só mais um sorriso.
Mais um momento de puro conforto.
E enquanto penso em ti, com os olhos,
Vou-me deliciando, esfregando este meu coração.

Ao Porto


Ficas bonita à chuva.
Gosto de te pensar quando chove.
Se outras são feias, tu embelezas-te
Ao simples cair de umas gotas.

Só fazes sentido quando estás cinzenta.
A tradição e os costumes agigantam-se quando estão molhados.
As janelas viradas para um horizonte agitado
Têm já uma beleza fatal perante tamanho espectáculo.

E é a natureza que te põe assim.
Não precisas de mais nada, nem do divino.
Basta que sobre ti caiam todas as águas
Que um homem não pode dar, mas sim admirar.

Gosto de olhar para ti à chuva
Quando te passeias com alarde
Exibindo todas as tuas formas
E deixas que um simples humano
Te possa abraçar e ser tocado no rosto
Pelas gotas da tua beleza.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Dor De Ter De Amar

Andei desaparecido desta morte.
"Está na miséria." Diziam uns.
"Só tem os ratos como amigos." Comentavam.
Pois bem aqui estou. Como sou, como não querem que seja.

O desprezo cai muitas vezes sobre mim.
Mas eu desprezo esses olhares.
Nada valem para mim. São falsos.
O que importa é olhar para a mão e sentir o calor.

Aquele calor esquisito, de quem ao frio nunca esteve.
Aquele calor que quase arrefece de tão quente que podia estar.
Enfim, só confusões em cada das minhas cicatrizes.
Cicatrizes de amor por certo.

Se doença nunca tive. Se quedas também não.
Se são estas cicatrizes de dor, pois bem.
Só na minha vida houve uma única dor.
A dor de ter de amar.

Às vezes penso nessa dor.
Ainda cá está como o calor da mão.
Ainda queima, ainda arrefece. Depende.
Nos dias em que passas, queima.
Naqueles em que não passas, arrefece.

Apesar de dor, é a minha única consolação.
É essa dor de amar que me faz sentir que fiz algo na vida.
Amei alguém. E isso talvez os olhares de desprezo nunca fizeram.
E posso estar a um palmo do nada, posso cheirar o odor da miséria.
Mas eu e tu sabemos de que são feitas estas cicatrizes.
E isso é o que mais me importa. Nada mais.

Nada me fará cair mais do que o que estou.
"Está louquinho. Passou-se de vez." Falavam.
Eu por vezes ria-me.
Tanta miséria neles e eu é que a cheiro.
Tanta falta de amor. Tanta desgraça.
E eu, de camisola rota, vou amando.Em vão, mas amo.
Pois a grandeza de um homem vê-se no tamanho do seu amor.



Martim da Ega

SBS

Mais uma vez ali estávamos os dois a falar de outra pessoa. "Dá-lhe uma oportunidade. Tenta. Pode ser que dê." Dizias tu. Eu só pensava: "Será que se esqueceu de tudo o que lhe disse? Como pode ela dizer uma coisa destas, sabendo que à minha frente estava quem eu queria?" Não sei. Nunca saberei porventura. Só queria saber se haveria espaço para o meu amor não correspondido em ti. Já me reconfortava que ao menos sentisses o meu amor. Não terias de retribuir. Só deixar-me amar-te, em silêncio.

sábado, 6 de novembro de 2010

O Sono


Penso um sono descontente
Que me dá o que o despertar não dá:
Um não pensar em nada, o sentir de forma irreal,
O gostar das coisas, mas às escuras.

Já tentei o despertar
Mas o corpo que tanto suporta
Nunca irá na sua infinitude,
Aguentar o fardo de alguém se erguer.

Poderia descobrir coisas novas
Talvez até ser outro que não eu
Iria alegrar o despertar e não sei quem mais
Pois o egoísmo de acordar é duro de carregar.

Prefiro o mau estar do sono
Liberta-me, movimenta-me, cansa-me
Mas será sempre o cansaço do sono pesado
Que me irá procurar as respostas
Para aquilo a que o despertar não acede.

Piso -4

- E gostas dela?- perguntaste-me.
Eu, que estava distraído a pensar, desviei o meu olhar para ti. Bastou. Tu sabias ainda melhor do que eu a resposta à pergunta que me acabaras de fazer. Os olhares que trocamos de seguida nem precisavam que alguém falasse mais daquele assunto.
Assim, continuamos a fazer o que tínhamos para fazer. Eu, a pensar em ti. Tu a tentar descobrir se eu pensava em ti.