sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Arte Saiu À Rua


Saíste nessa noite com ar deslumbrante
Sumptuosa e leve como quem esvoaça no vento
De maquilhagem e pinturas no rosto
De vaidade e alegria no ser.

Juntos, contrastávamos,
Eu, receoso dos olhares sobre ti, de cabelo desgrenhado
Tu, orgulhosa desse meu receio, de gesto aperaltado.
E então perguntaste-me se gostava do que via.

Eras, nessa noite, o encanto da minha alma
Eras a imagem que eu queria comigo, ao meu lado.
Ah, como resplandecia todo o teu ser iluminado!
Como era plena toda a tua figura!

Na festa, do mais reles ao mais faustoso olhar em ti se fixava.
Em ti, acendiam o desejo e motivavam a fantasia e imaginação
Em mim apagavam todo esse ardor inicial.
E tu, soberana da beleza, deambulavas ingénua.

Uma ingenuidade propositada
Para poderes recolher todas as merecidas atenções.
Agigantaste-te e fizeste daquele o teu momento
Eu percebi-te, mas disfarcei e cruzei o coração.

No regresso, não falaste. Hesitação? Não.
Apenas me deixaste apreciar-te em silêncio pois a arte é assim apreciada.
Mas uma arte sem rabiscos. Só com a pintura. E a moldura.
Tal moldura que fascinava os meus olhos de crítico de arte.

E de manhã, eu o pintor, pensei.
Pensei naqueles olhares lançados em ti e tive pena.
A pena daqueles que só puderam ver a moldura.
Pois a pintura, essa, estava ao meu lado. A repousar.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Recordar


Quem gosta de recordar?
Ninguém certamente
E quem diz que gosta, mente
Pois não deve ter nada para lembrar.

Não há recordações felizes
Todas são cruéis e fazem doer
E essa vontade de sermos petizes
Só nos faz amargar e sofrer
Pois todos sabemos o quão é quimera
Voltarmos aos tempos de garra e querer
Quando, agora, já nada é o que era.

Saber que não podemos mais ser
Aquilo que já fomos antes
E ter a nostalgia de perceber
Que já não podemos ser petulantes.

É essa época que se afirma
No início da nossa existência
Que se assoma no ser que se confirma
Nas suas regras de convivência.

Todo o presente é futuro
Todo o futuro já foi presente e será passado
E quando encontrar o que procuro
Já terá a morte escolhido o meu bocado.

Martim da Ega

New World


A sensação das luzes coloridas atrai-me
O estar noutra dimensão que não esta, fascina-me
Abstraio-me da abstracção da realidade,
Que se apresenta nua e crua.

Permite-me escapar de algo frequentemente existente
É uma nova vida que emerge
É o caos que se afirma e domina
É o Mundo, mas com sombras coloridas.

Os meus neurónios movem-se de contentamento
E executam o seu novo pensamento
Que, apesar da sua efemeridade
Dá uma sensação infinita.

Este foi o recurso achado
Para que flutuasse a inspiração
E é nele que me embriago
Com a sofreguidão de quem se quer ultrapassar.

Afogado em rebanhos e pastores
Quero vir à superfície da mudança
Quero nadar no universo colorido
Quero ser génio, não o sendo.

Falta


Este que vos escreve
Queria versos cantar, estrofes para celebrar
E ter linhas para contar
Mas a fraqueza é tal e o ódio descomunal.

A caneta já não é mais a voz da minha alma
É um simples objecto de escrever
Que dá corda à minha mão
E que, em mim, não tem utilidade.

Não é por falta de assunto
Ou falta de ideia
É, talvez, o meu suicídio
Que me não permite arrastar a mão.

Vou descansar
Pode ser que, quando acordar,
A fortuna queira algo de mim,
Noutro lugar.

A TI


Vi-te chegar e passar por mim
Vi-te andar em direcção ao destino
Aquele que pouco depois nos uniu
Para podermos então celebrar essa união.

Uma falsa união
Eu, sentado, contemplava-te
E tu, distraída, deixavas que te observasse
E, num gesto de simplicidade, sorrias.

Cada minuto era um olhar ao teu cabelo
Era alimento para o meu coração
Que estimulava o possível
Sem se aperceber da impossibilidade.

Agora, num gesto indiferente, sais
E eu tanto que tinha para te dizer
Não posso mais sentir-te
Mas ficarás para sempre retratada nestes versos,
A ti dedicados.

Estranheza


Este sítio é-me estranho
O olhar das pessoas aterroriza-me
Tenho medo da sua igualdade indiferente
Medo da sua apatia que corrói

Sou diferente neste torpor citadino
Os meus gritos de mudança são inócuos
Caem em gente telecomandada de olhos esbugalhados
Que seguem o destino dos que já foram iguais a elas

A revolução durou pouco
Aqueles que em mim eram lapas, fugiram
Foi um desejo sem almejo
A miséria tornou-se um vício,
A liberdade uma saudade.

Os avisos chegaram, os alertas assomaram
Mas tal era a rectidão que tudo foi escasso
Para combater tal exploração
Digna de enorme abominação.

O sangue pela liberdade derramado
Afunila-se para o esgoto
Juntando-se aos ratos famintos de podridão
Emanada pelas pessoas que caminham.

Eles falam, elas ouvem e gravam
Eles comandam, elas obedecem roboticamente
Eu clamo algo de novo elas passam ao meu lado
Rumando com alegria e satisfação amorfa

Fingem que não vêem e vêem,
Mas a cegueira é tanta
E o analfabetismo tal
Que lhes tapa a sua dignidade
Há muito esquecida por quem não se lembra de a ter.

Todas são espectadoras da fatal passagem
Assistem tranquilamente com escasso livre-arbítrio
Como quem não vive
A não ser a vida daqueles que nelas mandam

Eu não me converto à indiferença
Vou seguindo a pelejar pela diversidade
Escassa nesta imundície
Onde quem quer e tem intenção,
Consegue ser.

O Amor Não Sou Eu


Já não sei escrever poemas de amor
Perdi o jeito de, com as palavras, encantar
Perdi a arte dos versos embalar
Num caminho alegre e sem dor.

Tornei-me racional e insensível
Não alcanço aquilo que em mim é combustível
Odeio a ilusão e a fantasia
Que antes o amor trazia.

Eu sou aquele que farto de amar
Está sem amor
Nunca quis dele ter o sabor
E este é o fim que não pude evitar.

Eu não sou para amar, sou para pensar
Aquele ingénuo guardador de sonhos
Não pode mais voltar
Pois está cheio de pensamentos enfadonhos


Alertei os distraídos
O sofrimento de amor que comigo passaria
Talvez em ti veja um dia
Aquela que juntará os pedaços caídos.

O Estrangeiro


Eu não sou daqui
Eu não sou da modorra das pessoas
Eu não sou a igualdade
Eu não sou quem querem que seja.

Eu não sou esta miséria decadente
Sou a boa-nova da novidade
Sou inadaptado à conveniência
Sou o que difere, mas diferente.

Sou o pensamento da ignorância
Sou o indivíduo contra o colectivo,
O azul que destoa no vermelho
Sou o que todos deveriam ser
Sou marginal do rio que corre sempre igual.

Talvez seja castigo, este martírio
De combater, que me exausta
Estou cansado de vos gritar
E farto que não me ouçam.

Apelo-vos, sem fruto, que mudem
Percebam quem não vos quer perceber
Juntem-se, indiferentes, à diferença
Sou a liberdade.

Antes



Antes a vida era bela e tu também
As coisas eram tão simples como o Mundo
E eu, ingénuo como a criança no colo,
Era ser onde nada era nada.

Gostava de ti e da tua presença
Por ti, escalei o Amor
Ultrapassei-o e cheguei ao topo
Aí pus uma bandeira com o teu nome.
E orgulhei-me de nós.

Mas tu, que sempre alimentaste o meu sonho,
Empurraste-me e caí
Bati no fundo e por lá fiquei
E nem te apercebeste do que fizeste.


Fiquei estendido a sangrar por ti
Tu tapaste-me a ferida,
Mas fui que a tive de sarar
Para me erguer e continuar a viver.


Agora, já resgatado, arrependes-te,
E morres de pena por me teres empurrado.
Se ainda gosto de ti?
Sim, como alguém que dá oxigénio
Para eu escalar, por outra, a montanha.