sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Algo


Ia chorar por ti, mas não vales um sorriso meu.
Aquela coisa que para ti nem coisa é agora
Até vale um esgar meu.
Mas tu, nem o nada que ficou dessa coisa vales.

Quiseste, perante mim, ser gigante,
Mas, a tua pequenez é tanta,
Que nem te apercebes que já nem existes.

Poderás um dia passar por mim.
Não tentes sequer pensar em nada.
Apenas avança e tenta ser feliz
Que a infelicidade não te desejo.

Um dia vais recordar algo.
Algo que quiseste passar e viver,
Algo que não quiseste eterno,
Algo que ficou onde a noite cai.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Estímulo


Tem Pessoa e Bocage.
Todas as inconsciências conscientes,
Todos os palavrões que líricos se escrevem,
Tem o que sou e outros que não sou.

Tem as águas agitadas percorridas por Gama,
Todos os ciclopes e medusas em mim monstruosos.
Tem as arábias e os orientes perdidos,
Encontrados pelos obscuros ocidentes.

Tem as memórias por outros guardadas,
Tem recordações que à vida fui buscar.
Tem os amores de uma partitura de Mozart,
As idílicas dores de viajar até vós.

Bem-vindos ao meu ilustre pensar,
Que de ilustre tem a morte
E das suas cores nasceu o arco-íris,
Pintado a pincéis de felicidade.

Do núcleo terrestre à atmosfera,
Das voltas á via Láctea e a Andrómeda,
Da evaporação à solidificação, encontrando a condensação,
Todo o fim e início é meu pensamento.

É a tristeza com Da Vinci.
É o esculpir de Rodin nos meus cupidos.
São as minhas surrealistas frustrações
Com a minha imaginação cubista.


É todo este poema, todos os seus versos pensados.
É isto e o que ficou por dizer
Porque queria mais sobre mim escrever.
Mas pensei e doeu-me, terminando onde comecei.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Doentia Falta de Amar


Sinto uma doentia falta de amar.
Não de amar isto ou aquilo.
Apenas de amar.
Apenas o simples facto de dizer “Amo-te”.

Tenho saudades de não sentir esta falta.
Quando estavam comigo os beijos de alguém.
Quando olhava para a vida a amar.

Procurei o amor nas esquinas da paixão.
Mas quiseram vender-mo barato, sujo e falso
Quiseram o meu coração em troca.
Carente, honesto e desajeitado.

Procurei outras experiências.
A fugacidade de milhões de beijos,
A amizade do amor,
O momento que se passa para se perder
O mistério de não se conhecer.

Tudo inútil. Nada como o estéril amor.
Nada como a verdade de se amar.
Agora desisto e sinto esta atroz culpa
Esperando o perdão do amor.

domingo, 28 de novembro de 2010

Errar


Não fui eu, ali.
Não fui quem querias que tivesse sido.
Nunca consegui ser nada.
Iludi-te com a minha desilusão.

Assisti a um outro eu. Não gostei.
Fui um repugnante selvagem.
Não fui os princípios de toda a vida.
Que fiz eu?

Onde estava?
Aproveitei-me de algo que não era meu.
Não resisti aos meus instintos.
Fiz o erro de toda uma vida.

Saí de rastos daquele eu.
E agora que voltei a mim, enojo-me.
Merecia a solidão eterna.
A consciência daquele acto é ainda mais execrável.

Nem valem as desculpas.
Nem vale ter sido de igual modo voluntário.
Nem vale que tu tenhas gostado.
O que vale é que não valho nada.
Absolutamente nada.
Uma porcaria de nada.