quinta-feira, 24 de abril de 2008

A Leveza da ida


Lembro-me do seu vulto
Sua àspera mão passando meu semblante
Sua voz almejando por mim
Seu trépido carácter invadindo a aura
A vaguidão da casa sem ele
Pugno pelo seu retorno em vão
Colarizo-me pela certeza da ida
Porquê?
A leveza de estarmos nesta vida
Sabendo que temos de partir,
Porquê?
Não o ter contíguo a mim
Aceno para sempre,
Aceno para ti,
Pai Santo

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Sol, meu egrégio Sol


Hoje vi o Sol,
O Sol flamejando no horizonte,
O Sol resplandecendo os seres
Quero tangerá-lo mas ele está eminente,
Eminente no este do estrelato
É um Sol obscuro no luar e avistado no clarão
Transcende a nossa vivência
Ergue-se no cume da existência,
Desfaz-se no crepúsculo da réstia
Este é o Sol que leva o poder da senhora Lua
Sol egrégio do nosso começo
Sol, esfera de girassol
Sol esfera escarlate
Sol, beleza fausta e crepuscular.

Batalha Arrebatadora


Estávamos ali como quem está no purgatório. Já não importava a nossa família, quem amámos, quem prezamos ou quem de nós gosta.
O sangue esvaía-se do semblante dos meus companheiros e eu estava translúcido. Não suportava a dor em mim, por não esboçar nenhum movimento. Pranteava agora a pujança falecida de meus colegas.
O inimigo não tinha escrúpulos e matava a sangue frio quem com ele pelejava.
Senti que aquele era o meu ocaso e a última coisa que tinha dito à minha família foi: " Não preciso de vocês, nem de ninguém. Só preciso da guerra."
Nestes meses últimos tinha-me tornado um ser áspero e severo com quem me rodeava. A guerra mutou-me. Ao ouvir esta palavra bélica remeto-me inexoravelmenete para o sangue, o sofrimento, a dor de seres inocentes, que por tiranos rancorosos, passaram a seres inerentes à guerra. A guerra compelia as pessoas envolventes em si.
Só pensava na impressão deixada na minha pátria. Na sua profundidade, sabia que os meus mais próximos sentiam que eu estava transformado pela guerra. Mas mesmo assim, rugia-me no coração, eles não mereciam aquela minha incúria.
Um fragor tirou-me do meu raciocínio. Um soldado tinha sido alvejado na perna e empenhava agora os músculos e ossos daquele ser.
A guerra, meus ilustres, é o arrebatamento íntimo de tudo o que nela entra.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Réstia de Sobejo


O eterno restou em mim
Sem ti não sobeja o concreto
Só incerteza abstracta
Lobrigo tua ida, mas não a sarei
Exaraste meu âmago amor
Minha mística de ser foi mitigada por ti
Alheaste-me de sentir o invisível
E não discernir o visível
Cindes meus sonhos e vais avante
Desfaleçi de tudo e do nada,
Sou uma réstia de ti.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Ser O Nada


Sigo o crepúsculo embevecido
Pensando que aquele será o nosso ocaso
E não voltaremos a amanhecer
Pensamentos negrumes no meu ser
Vaguidão abstracta do nada
Não devia pensar no nada ao ver a vida da beleza
Mas corrói-me a alma
Seja talvez o meu íntimo
Leva-me a tal tortuosidade
Ressinto-me da avidez de fazer glória
Estou a trespassar-me,
Sou nada.

Beleza Crepuscular


Nunca tinha visto nada assim. Seus traços esbeltos, seus olhos azuis fazendo recordar o marulhar das ondas, sua pele sedenta de amor, estava perante a beleza mais graciosa da existência.
Era fim de tarde e o crepúsculo já mitigava o semblante dos transeuntes na rua.
Tive receio em me pôr diante dela, mas roguei-me de ânimo e disse-lhe:
- Como o ocaso é lindo...
- Sim, eu venho cá todos os dias para o observar- referiu ela.
- Infortunamente todos acabaremos assim, como o Sol, mas não nos levantaremos todos os amanhecer.
- Isso é verdade, mas não podemos ter tanto negrume nos nossos pensamentos ao ver esta beleza da vida.- disse ela, orgulhosa de fazer parte daquela vida.
Estava apaixonado e não sabia como agir. Pela primeira vez estava enamorado daquela maneira.
Após longos minutos de diálogo, abraçá-mo-nos e ficamos a dançar unidos no crepúsculo.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Para Sempre


Estava ali. Estava ali para confirmar que a imortalidade é uma utopia. Perante mim estava o meu pai, na sua decadência mais profunda.
Estava deitado na cama, às portas do limiar da eternidade e eu já não podia fazer nada.
O seu coração já quase não latejava, sua boca estava sedenta de vida, seus olhos estavam cada vez mais enclausurados, mas ainda permanecia o seu espírito pugnador. Suas mãos ao tocarem-me provocam um intrínseco sentimento em mim.
Agora só me podia memoriar dos dias e luares que com ele passei.
As nossas longas e acesas conversas resultantes das nossas personalidades diferentes que convergiam nos pontos mais importantes.
Saberei viver sem a sua figura no meu destino?
Terei de rumar à vida e descobrir as suas inquirições pelo meu próprio pensamento.
Estava ali o meu exemplo de vida.
O meu exemplo de vida estava a desaparecer de mim.
Adormeceu.

Sonhos Transcendentes


São quimeras mil,
Meus sonhos vagueando pelo breu da noite
Sonhos que se esmorecem no oriente
Sonhos que cindam o nosso pensamento
Sonhos devassos no ocaso do horizonte
Sonhos esparsos pelo escabroso tempo
Sonhos que tornam hostil a realidade
Sonhos amarguradores no desejo de ter
Fazem do acerbo algo deificador
Sonhos variados pelos existentes
Sonhos sonhados pela nossa transcendência
Sonhos conceptores da existência.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Ida sem retorno


Faço-me sentir nos sobejos do teu coração
Como quem ama a saudade
De longe vais, mas de perto não vens
Vou fazendo
Imaginando no crepúsculo da tua partida
Quero-te tanto
Agora adormecerei nos braços da tua ida
Amargando-te fiz-te luzir
Alvitro pelo teu retorno
Estou inacabado
No oriente já rumas
Mas, adverso ao destino,
Quero estar contigo num momento chamado sempre.

Memórias Eternas


Sento-me no sofá destroçado pelas memórias que fui tendo pelo passar dos estios.
Aquela casa no rio onde passava os meus dias e noites de árduo calor, ensombreado pela brisa tortuosa das águas daquele rio que passava na vanguarda daquela casa.
Naquele sofá passaram gerações da minha genealogia.
Aquele mesmo sofá que abarcara as mágoas de todos os meus ascendentes.
A melancolia pairava nas divisões daquela casa.
Agora era eu que tinha de curiar daquela humilde casa, após o adormecimento do meu pai e posteriormente da minha mãe.
As minhas reminiscências daquela casa remetiam-me, inexoravelmente, para as lágrimas escorridas do meu pai e da minha mãe ali mesmo, naquela casa, naquele sofá.
Aquela era uma casa escarlate, com o seu coração instalado na sala de estar, com 3 quartos nostálgicos das minhas recordações. Por fora corria um rio de águas calmas onde luzia o sol e onde resplandecia o luar da noite.
Após este dia sei que algo me fica: o essencial é invisível aos olhos.