terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ao Amor


Que seja eterna esta minha paixão,
Que sejam teus olhos sempre a minha inspiração,
Que seja tua beleza a razão para esta admiração.

Que as minhas mãos tremam sempre que te vejo,
Que o meu coração palpite ao ver-te chegar
Que a minha voz se embargue quando para mim falas,
Que chore de alegria minha alma ao ver este amor.

És o teu nome, invulgar e única.
És os teus olhos castanhos que lembram a terra quente,
És tudo isso e muito mais,
E esse mais é que me fascina.

E enquanto embalas o sono leve das gaivotas,
Sorrio enamorado nestas palavras que te dou.
Esperando apenas que chegues aos meus olhos,
Tal como és, nessa tácita provocação
Que me enche este expresso sentimento.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Tudo

Vejo por aí além,
Além das coisas e das coisinhas
E aquilo que podia ser tudo é nada,
Um nada distante das coisas.

É isso que vejo e que para muitos
É invisível. O nada. As coisinhas.
O tudo, facilmente se vê e se distingue
Das outras coisas.

Não sou melhor que ninguém. Não.
Apenas procuro coisinhas nas coisas da vida.
Sim essa madrasta que nos dá os tudos
E nos esconde os nadas.

Sigo esta minha visão

Certo das incertezas das coisas
Vagueando nas coerencias causais.
Dos nadas. Dos tudos.
Da luz que se apaga.

sábado, 11 de junho de 2011

O Beijo


O choro daquela alma gritava.
A todos que o quisessem ouvir.
Pedia ajuda, um auxílio.
O auxílio da razão talvez.

Ouvi e fui ter com ela.
Mas nada valia a pena.
Só restava a presença.
O sentir que se estava ali.

Chorou sem dó, sem pensar na desgraça,
Eu acatava aquele sofrimento
Quis abraçá-la, mas nem a conhecia.
Nem a alma queria, nem ela pedia.

Mas pediu-me muito mais.
Um beijo, de felicidade.
E o choro acabou.
E aquilo que parecia infinito, o choro,
Deu lugar à finitude do momento, o beijo.

A Noite(Poema)


De amor, só tenho a noite
Só ela, me dá as estrelas
Que trazem as memórias,
As memórias de quem já amei.

Não sei se alguma vez será dia.
Não sei se amarei o Sol
Ou as nuvens, ou o céu azul.
Não sei.

Sei que sou teu e tu trazes a noite contigo.
Sei que, para já, não quero a luz.
Só quero a luz que me dás,
A das constelações.

Deixa-me ver-te da janela.
Deixa aprecias o que de ti resta.
A escuridão, o negro
Da nossa paixão.

A Noite


-Já amaste? -  perguntava ela.
- Não me faças perguntas difíceis- dizia ele.
- Difícil? Não. Tem a reposta mais fácil de todas.
- Até acredito que sim. Mas não agora.
- Mas sabes o que é amar?- perguntou ela.
- Sim, acho que sim.
- Então já amaste, certo?
Pedro nem sabia que dizer. A verdade é que ela tinha chegado onde ele não queria. Na realidade Pedro já amara, sim. Já amara e com todo o coração. Com todos os batimentos por segundo. Mas agora via esse amor reflectido nas estrelas. Só quando chegava a noite ele revia esse amor. Na verdade ela já partira quando Pedro ainda a amava.
-Sim, mas só à noite- respondeu ele.
- À noite? Como assim?
- Só à noite quando as estrelas aparecem eu posso amar. De dia apenas anseio pela noite.
- Mas porquê? Só amar à noite?- indagou ela.
- Porque só ela me traz a luz das constelações e espelha as memórias de quem amei.
- E achas que não voltarás a amar de dia?
Ao que Pedro respondeu:
- Não, só quando o dia tiver estrelas. Aí sim, amarei.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Guardanapo


Escrevo num guardanapo.
Foi o que encontrei para pousar a caneta roída.
Continuo na mesma. Na miséria física.
Agora, neste momento, só tenho este guardanapo.

Até que sou feliz, assim. Já me habituei.
Acreditem.
Vou vivendo da riqueza dos outros.
Do que esbanjam e deitam para mm.

Como este guardanapo. Vem do Majestic, ilustres.
Imaginem só.
Um papel, de seda certamente, vindo de tão faustoso ambiente,
Onde a talha dourada se sobrepõe ao ébano das teclas do piano.

Eu de dourado, só tenho a urina que cheiro.
Continua o desdém dos ignorantes que passam por aqui.
Mas ainda vou mantendo o que de mais precioso tenho,
O pensamento. O creme de la creme do ser humano.

É verdade, caríssimos, também sei francês.
Não são as roupas que não tenho
Ou os banhos que não tomo
Que me impedem de pensar.

Sim, porque não é preciso ser rico para descobrir a razão.
Não preciso sequer de um tecto.
Enquanto tiver mente
Poderei igualar-me até àqueles que me atiraram um guardanapo.

Sei que não como scones ou croissants de ouro
Mas tenho raciocínio e consciência.
Sei que não bebo chá inglês
Mas venham os senhores com relógios de bolso
Ou as senhoras de chapéus de abas largas
Que ninguém sabe melhor o que é o pensamento
Do que aqui o mísero físico Martim da Ega.

Despeço-me da altura de um adeus de rua
Com a esperança que deixo neste papel, um simples guardanapo.
Branco como a complexidade do meu pensar.

Martim da Ega

Amor Pensado

Amo com o pensamento,
Não sei amar de outra forma.
É a mente o meu coração.
É ela quem me faz amar a minha paixão.

Até pode nem ser a melhor forma de amar
Mas desilusões e tristezas não as tenho
Pois o raciocínio conduz-me à felicidade.
E só ele me dará a verdadeira visão do amor.

Foi a vida que me fez ser assim.
As paredes e muros atravessados moldaram-me.
Criei um eu, que não magoa.
Ama, às vezes em silêncio, mas não sofre.

Assim vivo, assim caminho.
Rodeado de pensamento, rodeado de alimento.
Deixem-me ser e transcender à razão.
Deixem-me amar, racionalmente.


Martim da Ega

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ao ódio

Quis sentir o ódio.
Ninguém percebeu tal coisa.
Os frutos virão mais tarde.
A alegria, com eles virão.

Pareceu estranho, eu sei.
Mas houve uma razão.
Houve uma causa para que houvesse a consequência.
Houve uma pitada de estupidez.

Certo. Estupidez.
Aquela que é estúpida mas que se torna inteligente.
Aquela que magoa e depois nos passa a mão pela ferida.

Este é o princípio da incerteza nos outros.
Ninguém sabe, nem saberá. Só eu.
Mas os outros saberão um dia a razão.
E aí, as palavras se irão soltar.

Lírica em Sentido Descendente

Silêncio,
Escuridão, breu.
Transcendência,
Meditação, repouso.
Ar,
Nuvens, outra dimensão.
Tempo, não há.
Só leves passagens.
Memórias, recordações,
Ah! Aqui estais vós!
A passar por mim,
Em lentidão.
Sem rapidez, nem pressa.
Infinito, daqui o vejo.
Sem finito, só o eterno.
E pensar eu que vivia!
Isto sim é a vida!
Tristeza, não.
Felicidade, talvez.
Tudo abstracto, sem sentimentos
Nem a noção de os ter.
Pensamento, sim.
Tudo em mim, pensamento.
Mas sem pensar, só ter.
Só saber, só querer.
Desejo.
O máximo dos máximos.
Cor, luz.
Intermitências sonoras.
Ecos de mim.
Ecos de ti.
Ecos de toda a gente!
E não está cá ninguém!
Oh, como é belo!
Sentir e não saber que sentimos!
Vejo. Tudo. Nada.
Talvez delírios.
É, devem ser delírios.
Não! Não podeis ser vós!
Nem os delírios sabem tão bem!
Único.
Nem sei se sou eu. Devo ser.
Ou então, eu noutro humano.
Escuridão, breu.
Silêncio, outra vez…

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

V

Um dia disseste-me: “Quero ser feliz a teu lado. Não como amor ou como paixão, apenas estar a teu lado”. Não cumpriste a promessa. Uma promessa selada em tão idílicos moldes que fazia inveja aos deuses do consílio. Invocaste o fim, de um momento para o outro. Nem avisaste. Até podia dizer que tinha planos, que tinha objectivos para nós. Mas nem tinha. Tinha apenas a espontaneidade. Talvez tenha sido com esta espontaneidade que fizeste um acordo. Um acordo que não deixaria em ninguém motivos para ser espontâneo. E não deixou, de facto. Nos dias a seguir, choveu. Cada gota de chuva era como uma lágrima que deixavas cair. Como um sinal. Um sinal que me dizia: “Avança”. Tenho pensado em ti todos os dias. Mesmo quando até nem quero, penso. És inevitável. Gostava de te lembrar de outra forma. Aquela forma mais alegre, mais revigorante e até sorridente. Sei que querias assim. Mas se de facto é esse o teu desejo, não terias deixado de tão rude forma o que te fazia viver. Já coloquei a questão: “Será que aquilo que te fazia viver, era suficientemente forte?”. A resposta estará noutro lugar. Talvez seja Júpiter, presidente do consílio, o dono da resposta. Sinto e sei que nem vale a pena fazer perguntas muito menos responder às mesmas questões. Elas só trazem dúvidas e dúvidas que são um beco sem saída. Significas liberdade. Fizeste jus ao teu nome. Pois se contigo foi a cobardia, exprimiste também o expoente da liberdade humana: tomar a decisão de já não ter liberdade. 

Neblina


E no meio da neblina, desapareces…
Vais com a cerração da consciência.
Sem acenar ou gesticular
Deixando as apenas as pegadas, num saudoso caminhar.

Pode ver-se as linhas da tua figura deixadas pela sombra
É só isso que resta depois de se deixar de existir.
Para trás fica o que a alma deixa.
Fica aquilo que conseguirmos deslindar da neblina.

Vêem-se sorrisos que se esvoaçam,
Memórias que se dissipam no rio,
Lágrimas que se esbatem na neve,
Uma neve branca da pureza que te entranha.

E és como uma menina.
Menina que larga a mãe e se perde.
Quiçá na neblina, quiçá no caminhar.