segunda-feira, 16 de maio de 2011

Guardanapo


Escrevo num guardanapo.
Foi o que encontrei para pousar a caneta roída.
Continuo na mesma. Na miséria física.
Agora, neste momento, só tenho este guardanapo.

Até que sou feliz, assim. Já me habituei.
Acreditem.
Vou vivendo da riqueza dos outros.
Do que esbanjam e deitam para mm.

Como este guardanapo. Vem do Majestic, ilustres.
Imaginem só.
Um papel, de seda certamente, vindo de tão faustoso ambiente,
Onde a talha dourada se sobrepõe ao ébano das teclas do piano.

Eu de dourado, só tenho a urina que cheiro.
Continua o desdém dos ignorantes que passam por aqui.
Mas ainda vou mantendo o que de mais precioso tenho,
O pensamento. O creme de la creme do ser humano.

É verdade, caríssimos, também sei francês.
Não são as roupas que não tenho
Ou os banhos que não tomo
Que me impedem de pensar.

Sim, porque não é preciso ser rico para descobrir a razão.
Não preciso sequer de um tecto.
Enquanto tiver mente
Poderei igualar-me até àqueles que me atiraram um guardanapo.

Sei que não como scones ou croissants de ouro
Mas tenho raciocínio e consciência.
Sei que não bebo chá inglês
Mas venham os senhores com relógios de bolso
Ou as senhoras de chapéus de abas largas
Que ninguém sabe melhor o que é o pensamento
Do que aqui o mísero físico Martim da Ega.

Despeço-me da altura de um adeus de rua
Com a esperança que deixo neste papel, um simples guardanapo.
Branco como a complexidade do meu pensar.

Martim da Ega

Amor Pensado

Amo com o pensamento,
Não sei amar de outra forma.
É a mente o meu coração.
É ela quem me faz amar a minha paixão.

Até pode nem ser a melhor forma de amar
Mas desilusões e tristezas não as tenho
Pois o raciocínio conduz-me à felicidade.
E só ele me dará a verdadeira visão do amor.

Foi a vida que me fez ser assim.
As paredes e muros atravessados moldaram-me.
Criei um eu, que não magoa.
Ama, às vezes em silêncio, mas não sofre.

Assim vivo, assim caminho.
Rodeado de pensamento, rodeado de alimento.
Deixem-me ser e transcender à razão.
Deixem-me amar, racionalmente.


Martim da Ega

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ao ódio

Quis sentir o ódio.
Ninguém percebeu tal coisa.
Os frutos virão mais tarde.
A alegria, com eles virão.

Pareceu estranho, eu sei.
Mas houve uma razão.
Houve uma causa para que houvesse a consequência.
Houve uma pitada de estupidez.

Certo. Estupidez.
Aquela que é estúpida mas que se torna inteligente.
Aquela que magoa e depois nos passa a mão pela ferida.

Este é o princípio da incerteza nos outros.
Ninguém sabe, nem saberá. Só eu.
Mas os outros saberão um dia a razão.
E aí, as palavras se irão soltar.

Lírica em Sentido Descendente

Silêncio,
Escuridão, breu.
Transcendência,
Meditação, repouso.
Ar,
Nuvens, outra dimensão.
Tempo, não há.
Só leves passagens.
Memórias, recordações,
Ah! Aqui estais vós!
A passar por mim,
Em lentidão.
Sem rapidez, nem pressa.
Infinito, daqui o vejo.
Sem finito, só o eterno.
E pensar eu que vivia!
Isto sim é a vida!
Tristeza, não.
Felicidade, talvez.
Tudo abstracto, sem sentimentos
Nem a noção de os ter.
Pensamento, sim.
Tudo em mim, pensamento.
Mas sem pensar, só ter.
Só saber, só querer.
Desejo.
O máximo dos máximos.
Cor, luz.
Intermitências sonoras.
Ecos de mim.
Ecos de ti.
Ecos de toda a gente!
E não está cá ninguém!
Oh, como é belo!
Sentir e não saber que sentimos!
Vejo. Tudo. Nada.
Talvez delírios.
É, devem ser delírios.
Não! Não podeis ser vós!
Nem os delírios sabem tão bem!
Único.
Nem sei se sou eu. Devo ser.
Ou então, eu noutro humano.
Escuridão, breu.
Silêncio, outra vez…