
Saíste nessa noite com ar deslumbrante
Sumptuosa e leve como quem esvoaça no vento
De maquilhagem e pinturas no rosto
De vaidade e alegria no ser.
Juntos, contrastávamos,
Eu, receoso dos olhares sobre ti, de cabelo desgrenhado
Tu, orgulhosa desse meu receio, de gesto aperaltado.
E então perguntaste-me se gostava do que via.
Eras, nessa noite, o encanto da minha alma
Eras a imagem que eu queria comigo, ao meu lado.
Ah, como resplandecia todo o teu ser iluminado!
Como era plena toda a tua figura!
Na festa, do mais reles ao mais faustoso olhar em ti se fixava.
Em ti, acendiam o desejo e motivavam a fantasia e imaginação
Em mim apagavam todo esse ardor inicial.
E tu, soberana da beleza, deambulavas ingénua.
Uma ingenuidade propositada
Para poderes recolher todas as merecidas atenções.
Agigantaste-te e fizeste daquele o teu momento
Eu percebi-te, mas disfarcei e cruzei o coração.
No regresso, não falaste. Hesitação? Não.
Apenas me deixaste apreciar-te em silêncio pois a arte é assim apreciada.
Mas uma arte sem rabiscos. Só com a pintura. E a moldura.
Tal moldura que fascinava os meus olhos de crítico de arte.
E de manhã, eu o pintor, pensei.
Pensei naqueles olhares lançados em ti e tive pena.
A pena daqueles que só puderam ver a moldura.
Pois a pintura, essa, estava ao meu lado. A repousar.
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