O esvair que se queda nele,
Queda-se pela donzela amante
Sentindo o seu pesar na pele,
Que corrói o sangue derramante.
A morte é a fatal testemunha
Daquele funesto afrontamento
Em que o amor nada mais punha
E só restava o sentimento.
Via o mísera deambulante
A débil condição virginal
De sua sempiterna amante,
Que quis com ela ser imortal.
Pegando em divino punhal
Cravejou seu fustigado peito
Com a rude força infernal,
Levando a cobiçada no leito.
domingo, 21 de julho de 2013
Mundo Faz de Conta
Faz de conta que estás contente,
Faz de conta que ninguém te oprime,
Faz de conta que gostas desta gente,
Faz de conta para quem te reprime .
Não faças de conta que a vida entortou,
Não faças de conta que amargas,
Não faças de conta que vives com amarras,
Não faças de conta que ninguém te abre a porta.
Faz de conta que sabes onde andas,
Faz de conta que a bandeira brilha,
Faz de conta que não entras na guerrilha,
Faz de conta que comandas.
Neste mundo faz de conta,
Tudo é feliz,
Niguém te amedronta,
Agora faz de conta que vives num país.
Faz de conta que ninguém te oprime,
Faz de conta que gostas desta gente,
Faz de conta para quem te reprime .
Não faças de conta que a vida entortou,
Não faças de conta que amargas,
Não faças de conta que vives com amarras,
Não faças de conta que ninguém te abre a porta.
Faz de conta que sabes onde andas,
Faz de conta que a bandeira brilha,
Faz de conta que não entras na guerrilha,
Faz de conta que comandas.
Neste mundo faz de conta,
Tudo é feliz,
Niguém te amedronta,
Agora faz de conta que vives num país.
Pranto
As lágrimas que cobrem teu rosto
São o espelho do teu coração,
Tímido com a desgraça
E que bate por quem não deve.
Mas essas lágrimas,
Do céu desavindas a brotar
Não são um choro banal,
São o pranto que corre por tua beleza eterna.
São o espelho do teu coração,
Tímido com a desgraça
E que bate por quem não deve.
Mas essas lágrimas,
Do céu desavindas a brotar
Não são um choro banal,
São o pranto que corre por tua beleza eterna.
Adrenalina
O horizonte basta para ti
Que te pões na linha do risco
Para libertar essa sensação
De adrenalina.
A adrenalina de correr
Para iludir o tempo
E para te evadires de ti
Se mais lamento.
Há mil caminhos para percorrer
Infinitos sorrisos para sorrir
Multidões de obstáculos para venceres,
Uma imensidão de trilhos para aventurar,
Um universo sem fim para te perderes.
Sem nunca desistires
Embriagas-te com coragem
Injectas-te de aventura
E, sem temores,
Rossas os limites da proeza.
Pois, para ti,
O horizonte basta.
Que te pões na linha do risco
Para libertar essa sensação
De adrenalina.
A adrenalina de correr
Para iludir o tempo
E para te evadires de ti
Se mais lamento.
Há mil caminhos para percorrer
Infinitos sorrisos para sorrir
Multidões de obstáculos para venceres,
Uma imensidão de trilhos para aventurar,
Um universo sem fim para te perderes.
Sem nunca desistires
Embriagas-te com coragem
Injectas-te de aventura
E, sem temores,
Rossas os limites da proeza.
Pois, para ti,
O horizonte basta.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
A Vida
A vida, meus caros, não tem senão vidas.
Aquelas que vivemos, na vida.
Um ir e vir de emoções,
Num desaguar de verdades absolutas.
A vida é a vidinha.
Aquela que vivemos sem dar por isso.
Um brotar de pessoas com quem não falamos,
Num evitar de coisas que não queremos.
Vivemo-la com o rebuliço do pensamento,
Sem pensar muito na sorte.
É gostar sem saber e sem saber que gostamos.
É dessa índole que somos feitos.
Da vida, somos o que fazemos.
E do que queremos fazer, que ninguém nos impeça.
Somos mais que ninguém e ninguém é menos que nós.
Agora, vivamos, porque a vida não quer saber de nós,
Também ela avança e caminha. Na calma do tempo.
Aquelas que vivemos, na vida.
Um ir e vir de emoções,
Num desaguar de verdades absolutas.
A vida é a vidinha.
Aquela que vivemos sem dar por isso.
Um brotar de pessoas com quem não falamos,
Num evitar de coisas que não queremos.
Vivemo-la com o rebuliço do pensamento,
Sem pensar muito na sorte.
É gostar sem saber e sem saber que gostamos.
É dessa índole que somos feitos.
Da vida, somos o que fazemos.
E do que queremos fazer, que ninguém nos impeça.
Somos mais que ninguém e ninguém é menos que nós.
Agora, vivamos, porque a vida não quer saber de nós,
Também ela avança e caminha. Na calma do tempo.
segunda-feira, 18 de junho de 2012
Para O Knut
Vivo na miséria.
Na miséria física, não mental.
Mas quero esta miséria.
Não almejo mais nada senão a miséria.
Só quero pensar.
Pensar e escrever. Compulsivamente.
A minha sobrevivência é o meu pensamento.
Mas vou enfraquecendo, dizem.
Invento. Desde nomes a imagens.
Invento palavras até, mas com sentido.
Sentido para esta lástima em que me encontro.
Vou alucinando contos e escritos. Perdi o meu nome.
Já não tenho crenças. Nunca tive, de resto.
Esta vida que nos querem dar, não vale nada. Nada.
Não sou Dostoievski. Serei Kafka, um dia.
A minha condição não gosta de nada que me oferecem.
Quero escrever! Deixem-me escrever!
Não quero comer! Não quero mais nada material.
Sou espiritual. Não me tentem salvar, só preciso do lápis.
Já não me encontro mais. Deixo-vos esta arte.
A arte da fome.
Na miséria física, não mental.
Mas quero esta miséria.
Não almejo mais nada senão a miséria.
Só quero pensar.
Pensar e escrever. Compulsivamente.
A minha sobrevivência é o meu pensamento.
Mas vou enfraquecendo, dizem.
Invento. Desde nomes a imagens.
Invento palavras até, mas com sentido.
Sentido para esta lástima em que me encontro.
Vou alucinando contos e escritos. Perdi o meu nome.
Já não tenho crenças. Nunca tive, de resto.
Esta vida que nos querem dar, não vale nada. Nada.
Não sou Dostoievski. Serei Kafka, um dia.
A minha condição não gosta de nada que me oferecem.
Quero escrever! Deixem-me escrever!
Não quero comer! Não quero mais nada material.
Sou espiritual. Não me tentem salvar, só preciso do lápis.
Já não me encontro mais. Deixo-vos esta arte.
A arte da fome.
sábado, 16 de junho de 2012
Um Não-Amor
Monotonia, acalmia.
Tudo à minha volta se revia, na nostalgia.
Sem amor, com ilusão,
Sem coração, com decepção.
De repente, um sopro.
Um sopro sem cor, creio, mas com muita alma.
Essa alma vinha leve, calma, como a brisa.
Essa alma naquele sopro eras tu.
E a monotonia foi alegria.
E a nostalgia não mais foi ditadora do meu pensamento.
Com ilusão, com coração.
Com paixão, com amor.
Mas não te posso amar.
Esse sopro veio com tristeza.
A tristeza que sempre me cercou.
Um cerco de infortúnio, de um não amor.
Prefiro o tão angustiante repouso.
Sempre é menos doloroso do que te amar.
Quero a vida sem vida, que essa não tem amor, e o amor magoa.
Tudo à minha volta se revia, na nostalgia.
Sem amor, com ilusão,
Sem coração, com decepção.
De repente, um sopro.
Um sopro sem cor, creio, mas com muita alma.
Essa alma vinha leve, calma, como a brisa.
Essa alma naquele sopro eras tu.
E a monotonia foi alegria.
E a nostalgia não mais foi ditadora do meu pensamento.
Com ilusão, com coração.
Com paixão, com amor.
Mas não te posso amar.
Esse sopro veio com tristeza.
A tristeza que sempre me cercou.
Um cerco de infortúnio, de um não amor.
Prefiro o tão angustiante repouso.
Sempre é menos doloroso do que te amar.
Quero a vida sem vida, que essa não tem amor, e o amor magoa.
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Sabes
Sabes a beleza,
Sabes ao doce encanto dos
verdes campos
E à misteriosa verdade de
um sonho.
Sabes ao ar, puro e
límpido como o teu olhar.
Sabes a ternura,
Sabes àquela simplicidade
que dá forma à vida
E eu saboreio tudo o que
me dás
Sem questionar, sem
pensar, apenas sendo feliz.
Soam as trombetas do
amor,
Cantam líricas as aves à
tua passagem.
E, ao mostrares tal
elegância,
Algo refresca e alimenta
este meu ser.
Sorris com o coração
Sem saber sequer que te
quero.
E o Mundo vai girando, o
homem evoluindo, as coisas passando
E eu, eu vou amando.
terça-feira, 29 de maio de 2012
Chuva
Chovia.
Naquela tarde, era o que tinha.
A
chuva. Nada mais.
Ela
trazia o teu sorriso
E
dela fazia as minhas lágrimas.
O
ruído, aquele das gotas na janela, acalmava-me.
Aquele
"tan! tan! tan!" ininterrupto, agradava-me.
Deliciava-me
ao ouvi-lo a pensar em ti.
Substanciava
o que sentia. Amor.
Olhei.
Olhei cada milímetro da pluviosidade.
Gostava
de supor que cada um era uma paixão.
Que
ia batendo em várias janelas, aquelas que eram as donzelas.
E,
tal como aquelas gotas, um dia pára.
O
amor, o "tan! tan! tan!", os milímetros da paixão.
E
o sol irá raiar lá no alto.
E
mostrar o meu coração molhado pela chuva.
Loucura
Dizem que sou louco, esses bandalhos!
"Arghhh!" Como ousam dizer que vivo na loucura?
Sabem lá eles quanta lucidez vive em mim!
Sabem lá eles sequer o que é viver!
Não vivo na loucura, não senhor!
Vivo no meu pensamento, e esse é bem salutar.
Ao contrário de vocês, vulgares execráveis!
Que nem pensar sabem certamente!
"Arggghh!" Louco! "Hmmm!" Louco!
Ora vejam bem o que haviam de dizer de mim!
Mas não se cansem de me apontar defeitos.
É da maneira que ilumino as minhas qualidades.
Ouçam o ruído, ilustres vagabundos.
Ouvem? E que tal? Gostam?
É o barulho das vossas ideias a ecoar no encéfalo.
Sem mais nada, só vazio.
Mas continuem. Imputam-me a loucura
Que eu dela farei a sabedoria, a que vos falta.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Partida
Não quero amigos nem família,
Não quero choro nem lágrimas.
Não quero a tristeza do negro luto.
Não quero dó nem piedade.
Quero a chuva que sempre me perseguiu.
Quero a terra molhada e o coveiro, apenas.
Quero sentir-me sozinho, sem procissão nem o lúgubre folclore.
Quero o pó que se levantar quando for a enterrar.
Não quero rosas, nem vermelhas nem quentes.
Não quero a esperança além-morte.
Não quero saber de destino nem de gritos aflitos.
Não quero céu, nem inferno, nem dores, nem pesares.
Quero as ervas duras sobre o meu corpo adormecido.
Quero sentir o chocar dos ossos.
Quero a mudez que será a minha fala.
Não quero a balada dos sinos,
Não quero visitas ao meu leito
Nem tão pouco rezas ao meu espírito.
Quero os pássaros que, cruelmente, hão-de pousar na minha pedra.
Quero ser alimento da Natureza, do que é natural.
Quero passar pelos anos, ali, sem que notem a minha passagem.
Quero estar entregue à própria sorte, à morte.
Não quero choro nem lágrimas.
Não quero a tristeza do negro luto.
Não quero dó nem piedade.
Quero a chuva que sempre me perseguiu.
Quero a terra molhada e o coveiro, apenas.
Quero sentir-me sozinho, sem procissão nem o lúgubre folclore.
Quero o pó que se levantar quando for a enterrar.
Não quero rosas, nem vermelhas nem quentes.
Não quero a esperança além-morte.
Não quero saber de destino nem de gritos aflitos.
Não quero céu, nem inferno, nem dores, nem pesares.
Quero as ervas duras sobre o meu corpo adormecido.
Quero sentir o chocar dos ossos.
Quero a mudez que será a minha fala.
Não quero a balada dos sinos,
Não quero visitas ao meu leito
Nem tão pouco rezas ao meu espírito.
Quero os pássaros que, cruelmente, hão-de pousar na minha pedra.
Quero ser alimento da Natureza, do que é natural.
Quero passar pelos anos, ali, sem que notem a minha passagem.
Quero estar entregue à própria sorte, à morte.
Whisky-Amor
A garrafa ia a meio, mas o coração estava cheio,
Cheio de ilusões e amores inatingíveis.
Amores não. Amor. Porque em mim só há um.
E é por esse que bebo.
Cada gole é cada amargura de um sentimento sem fim,
Cada trago é uma corda que amarra o meu sonho.
Tenho em mim dois alimentos,
O amor e o whisky.
A loucura cai em mim tal como a frustração.
A frustração de não me encontrar contigo nesta paixão.
Já pensei em tudo. Já fui e já vim.
Não sei se terei suporte líquido para abater esta dor.
Deixai-me na embriaguez desta impossibilidade.
Junta-te ó veneno escocês a mim.
Vamos amar e vamos sonhar, sem sobriedade.
Vamos cair, agora,
Sem que nada nos iniba de beber, amando.
Cheio de ilusões e amores inatingíveis.
Amores não. Amor. Porque em mim só há um.
E é por esse que bebo.
Cada gole é cada amargura de um sentimento sem fim,
Cada trago é uma corda que amarra o meu sonho.
Tenho em mim dois alimentos,
O amor e o whisky.
A loucura cai em mim tal como a frustração.
A frustração de não me encontrar contigo nesta paixão.
Já pensei em tudo. Já fui e já vim.
Não sei se terei suporte líquido para abater esta dor.
Deixai-me na embriaguez desta impossibilidade.
Junta-te ó veneno escocês a mim.
Vamos amar e vamos sonhar, sem sobriedade.
Vamos cair, agora,
Sem que nada nos iniba de beber, amando.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Ao Amor
Que seja eterna esta minha paixão,
Que sejam teus olhos sempre a minha inspiração,
Que seja tua beleza a razão para esta admiração.
Que as minhas mãos tremam sempre que te vejo,
Que o meu coração palpite ao ver-te chegar
Que a minha voz se embargue quando para mim falas,
Que chore de alegria minha alma ao ver este amor.
És o teu nome, invulgar e única.
És os teus olhos castanhos que lembram a terra quente,
És tudo isso e muito mais,
E esse mais é que me fascina.
E enquanto embalas o sono leve das gaivotas,
Sorrio enamorado nestas palavras que te dou.
Esperando apenas que chegues aos meus olhos,
Tal como és, nessa tácita provocação
Que me enche este expresso sentimento.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Tudo
Vejo por aí além,
Além das coisas e das coisinhas
E aquilo que podia ser tudo é nada,
Um nada distante das coisas.
É isso que vejo e que para muitos
É invisível. O nada. As coisinhas.
O tudo, facilmente se vê e se distingue
Das outras coisas.
Não sou melhor que ninguém. Não.
Apenas procuro coisinhas nas coisas da vida.
Sim essa madrasta que nos dá os tudos
E nos esconde os nadas.
Sigo esta minha visão
Certo das incertezas das coisas
Vagueando nas coerencias causais.
Dos nadas. Dos tudos.
Da luz que se apaga.
Além das coisas e das coisinhas
E aquilo que podia ser tudo é nada,
Um nada distante das coisas.
É isso que vejo e que para muitos
É invisível. O nada. As coisinhas.
O tudo, facilmente se vê e se distingue
Das outras coisas.
Não sou melhor que ninguém. Não.
Apenas procuro coisinhas nas coisas da vida.
Sim essa madrasta que nos dá os tudos
E nos esconde os nadas.
Sigo esta minha visão
Certo das incertezas das coisas
Vagueando nas coerencias causais.
Dos nadas. Dos tudos.
Da luz que se apaga.
sábado, 11 de junho de 2011
O Beijo
O choro daquela alma gritava.
A todos que o quisessem ouvir.
Pedia ajuda, um auxílio.
O auxílio da razão talvez.
Ouvi e fui ter com ela.
Mas nada valia a pena.
Só restava a presença.
O sentir que se estava ali.
Chorou sem dó, sem pensar na desgraça,
Eu acatava aquele sofrimento
Quis abraçá-la, mas nem a conhecia.
Nem a alma queria, nem ela pedia.
Mas pediu-me muito mais.
Um beijo, de felicidade.
E o choro acabou.
E aquilo que parecia infinito, o choro,
Deu lugar à finitude do momento, o beijo.
A Noite(Poema)
De amor, só tenho a noite
Só ela, me dá as estrelas
Que trazem as memórias,
As memórias de quem já amei.
Não sei se alguma vez será dia.
Não sei se amarei o Sol
Ou as nuvens, ou o céu azul.
Não sei.
Sei que sou teu e tu trazes a noite contigo.
Sei que, para já, não quero a luz.
Só quero a luz que me dás,
A das constelações.
Deixa-me ver-te da janela.
Deixa aprecias o que de ti resta.
A escuridão, o negro
Da nossa paixão.
A Noite
-Já amaste? - perguntava ela.
- Não me faças perguntas difíceis- dizia ele.
- Difícil? Não. Tem a reposta mais fácil de todas.
- Até acredito que sim. Mas não agora.
- Mas sabes o que é amar?- perguntou ela.
- Sim, acho que sim.
- Então já amaste, certo?
Pedro nem sabia que dizer. A verdade é que ela tinha chegado onde ele não queria. Na realidade Pedro já amara, sim. Já amara e com todo o coração. Com todos os batimentos por segundo. Mas agora via esse amor reflectido nas estrelas. Só quando chegava a noite ele revia esse amor. Na verdade ela já partira quando Pedro ainda a amava.
-Sim, mas só à noite- respondeu ele.
- À noite? Como assim?
- Só à noite quando as estrelas aparecem eu posso amar. De dia apenas anseio pela noite.
- Mas porquê? Só amar à noite?- indagou ela.
- Porque só ela me traz a luz das constelações e espelha as memórias de quem amei.
- E achas que não voltarás a amar de dia?
Ao que Pedro respondeu:
- Não, só quando o dia tiver estrelas. Aí sim, amarei.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Guardanapo
Escrevo num guardanapo.
Foi o que encontrei para pousar a caneta roída.
Continuo na mesma. Na miséria física.
Agora, neste momento, só tenho este guardanapo.
Até que sou feliz, assim. Já me habituei.
Acreditem.
Vou vivendo da riqueza dos outros.
Do que esbanjam e deitam para mm.
Como este guardanapo. Vem do Majestic, ilustres.
Imaginem só.
Um papel, de seda certamente, vindo de tão faustoso ambiente,
Onde a talha dourada se sobrepõe ao ébano das teclas do piano.
Eu de dourado, só tenho a urina que cheiro.
Continua o desdém dos ignorantes que passam por aqui.
Mas ainda vou mantendo o que de mais precioso tenho,
O pensamento. O creme de la creme do ser humano.
É verdade, caríssimos, também sei francês.
Não são as roupas que não tenho
Ou os banhos que não tomo
Que me impedem de pensar.
Sim, porque não é preciso ser rico para descobrir a razão.
Não preciso sequer de um tecto.
Enquanto tiver mente
Poderei igualar-me até àqueles que me atiraram um guardanapo.
Sei que não como scones ou croissants de ouro
Mas tenho raciocínio e consciência.
Sei que não bebo chá inglês
Mas venham os senhores com relógios de bolso
Ou as senhoras de chapéus de abas largas
Que ninguém sabe melhor o que é o pensamento
Do que aqui o mísero físico Martim da Ega.
Despeço-me da altura de um adeus de rua
Com a esperança que deixo neste papel, um simples guardanapo.
Branco como a complexidade do meu pensar.
Martim da Ega
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