Vivo na miséria.
Na miséria física, não mental.
Mas quero esta miséria.
Não almejo mais nada senão a miséria.
Só quero pensar.
Pensar e escrever. Compulsivamente.
A minha sobrevivência é o meu pensamento.
Mas vou enfraquecendo, dizem.
Invento. Desde nomes a imagens.
Invento palavras até, mas com sentido.
Sentido para esta lástima em que me encontro.
Vou alucinando contos e escritos. Perdi o meu nome.
Já não tenho crenças. Nunca tive, de resto.
Esta vida que nos querem dar, não vale nada. Nada.
Não sou Dostoievski. Serei Kafka, um dia.
A minha condição não gosta de nada que me oferecem.
Quero escrever! Deixem-me escrever!
Não quero comer! Não quero mais nada material.
Sou espiritual. Não me tentem salvar, só preciso do lápis.
Já não me encontro mais. Deixo-vos esta arte.
A arte da fome.
Sem comentários:
Enviar um comentário