segunda-feira, 26 de abril de 2010

Saudade


Tinha chegado a casa. Rodara as chaves. Abrira lentamente a porta e fora para o quarto. À frente, a cama desejosa do seu corpo. O dia ia longo e fora difícil.Queria não pensar no que tinha acontecido, mas a almofada não permitia. Era mais forte o coração do que o raciocínio. O primeiro mandava sentir, o segundo mandava não pensar na situação. A noite seguia, o dia fugia e tudo estava igual. Ela tinha-o deixado ao fim de duas semanas de observação. Todos os dias a via, todos os dias se aquecia com o olhar. Foi-se embora sem saber que ele a observava. Talvez viesse a gostar dele. Talvez não. Nunca poderá saber as respostas que a almofada não dava às perguntas que fazia. Sabia o seu nome. Íris. Nada mais. Iria ficar com estas letras para sempre. Sabia (ou pelo menos pensava que sabia) que não iria encontrar igual a ela. Ia agora derretendo estes pensamentos pela cama, desejoso que ela voltasse. Mas não. Nunca mais iria voltar. Havia agora um longo percurso a andar. Havia agora um olhar para a noite lembrando-se dela. Havia saudade.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Artista


Tocam o ébano e o marfim
Com os dedos do artista
Emanando o belo sonoro
De tampa aberta ao público.

Acompanhado com entusiasmo
E juntando-se aos outros sons
Vai esbanjando talento e classe
Na sala plena de fantasia.

É o ré, é o mi, é o sol
Que entoam na pauta.
Sem voz, só o objecto. Só a peça.

E o entusiasta vai bailando
Com o ébano e o marfim
Até que se levanta
E, num gesto de recompensa,
Recebe aquilo a que tem direito.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Blog

Visitem um outro blog meu que mostra outra faceta da minha pessoa. O blog chama-se Esmaga e Come e é virado para o humor com crónicas, sketches, opiniões, piadas etc.
O endereço é www.esmagaecome.blogspot.com
Visitem!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Lua


Um ponto amarelo claro.
Um clarão.
Torna-se gigante.
Silêncio.

Os olhos virados para cima.
O rosto perplexo da aldeia.
O espanto revelado nas pessoas boquiabertas.
O desconhecido que alimenta a curiosidade.

Como acontecera?
Nunca a tinham visto assim. Nunca a tinham sentido assim.
Não a sabiam assim.
Era tudo novo. Tudo diferente que os tornava principiantes.

O burburinho instalado tenta descobrir o enigma daquele brilho.
Tudo ofuscado pelo ponto algo diferente naquela noite.
Aquela que lhes fazia companhia, mudou-se.
A Lua estava partida. A Lua estava em metades. A Lua deixou de ser Lua.

sexta-feira, 19 de março de 2010

In(Felicidade)


A felicidade não cabe em mim
Não gosto da excitação humana. É tétrico.
Não gosto daquele contentamento ingénuo. É falso.
Mais vale a infelicidade.

Essa é verdadeira. Não a podemos fingir. Nem enganar.
Ela acaba por ser a solução para nós, homens.
Nunca a felicidade é verdadeira e pura.
É sempre acompanhada pela nossa fantasia.

A fantasia de estarmos no caminho certo,
Para depois nos fazer pensar que atingimos a infelicidade.
A fantasia de estarmos felizes e de, ciclicamente,
Acabarmos por nos cruzar com a infelicidade.
Mas é fantasia pois não é a felicidade que nos leva à infelicidade.

É ela que devemos procurar.
Ela nos levará ao sucesso e à purificação.
Ela transformar-nos-á em seres resistentes e assertivos.
Ela chegará e vencerá tudo o que em nós quiser haver.

Assim, não deve existir felicidade. É uma mentira.
É apenas uma metamorfose que nos levará a infelicidade.
Não se deixem enganar. Quando se sentirem felizes,
Estão errados. Irão ter à infelicidade.
Significará que estão longe da certeza.
Pois a felicidade é a mais pura das ingenuidades
E a mais demente das ilusões.

Espanhola


Eras tu, latina de origem e habilidosa com a beleza
Tinhas o sangue quente das ibérias e o encantamento das castanholas.
Juntamos ali a península.
Juntamos os descobrimentos e a guerra civil de Picasso
Fomos a fronteira que separa os pedaços de terra.
Fomos Colombo espanhol e português.

Queria rever-te.
Queria voltar a sentir o calor da tua pele.
Queria reviver a sensação de ser enfeitiçado pelo estrangeiro.
Foi fugaz, foi efémero, foi mistério.

Talvez pelo mistério, talvez pela fugacidade, foi místico.

É a tua volúpia caliente que retenho no meu corpo.
É a sensação sinuosa daquele momento que ainda sinto.
É o possuir desenfreado de ti e de mim, em constante troca.
É o desejo de me querer extravasar.

Precisei daquele instante.
Precisei de me sentir vivo.
E foi em ti, espanhola, que espelhei o meu querer.
Talvez nunca te vá a encontrar outra vez, mas és tu que em mim ficará,
Quando me recordar desse país que é o teu ser.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Aos Que Não Acreditam (Os Crentes)


A vós que querem que exista. Não existe.
Sem ambição, sem júbilo, sem desejo.
Só tristeza. É isso que vos reserva.
Isso e não conseguirem nada mais do que ignorância.

Libertem-se desse fardo. Nada vos irá acontecer.
Libertem-se de entregar a alma por tostões.
Libertem-se da obrigação de agradecer a não sei quem.
Querem felicidade? Essa, é vossa, de mais ninguém.

Admiram algo que não é algo.
Então que vida querem? A mesquinha vida
De quem está algemado?
E nem acreditam, nem sabem porque existe.

Fé? Tudo bem, em mim, mais nada.
Mais ninguém me dará fé que não consiga atingir.
Andam para aqui e para ali, sem raciocínio.
Vós sois irracionais. Sois apenas seres falantes.

E vão sendo usurpados da vossa energia.
Usurpados por aqueles que se fazem passar de crentes
E num instante se transformam em salteadores.
É a eles que pagam a vossa crença na inexistência.
E só eles lucram. Vocês fazem-se de apatetados.

No fundo falam para a atmosfera.
E esperam resposta da atmosfera?
Ela tal como vocês vagueia sem nexo e causalidade.
Que ciência é a vossa de serem quase robots?
Que desejo é esse de se transcenderem para o que não é transcendente?
Nada, apenas nada.