Deixa saudades, deixa solidão,
Deixa fantasias, deixa paixão.
Deixa um mundo, parte para outro.
Deixa o rastilho, deixa a pólvora.
Acenos, lágrimas e sorrisos. Mas poucos.
O momento não é de felicidade. É de fugacidade.
A velocidade. O som. A velocidade do som.
Tudo misturado entre rostos e a atmosfera.
Disparou, saiu. O pó das emoções assenta pelo descampado.
Ninguém fica indiferente. Não percebem o porquê.
Sair assim, sem aparente nexo, directamente para o Sol.
“Um dia gostava de voltar”. Pensava ele.
“Adeus!”, gritam.
E ele cumpre a missão de se escapar.
E vai ele, o homem-bala.
sábado, 25 de setembro de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
A Minha Liberdade

A liberdade não existe
Existem liberdades.
Não há uma liberdade,
Há a liberdade deste e daquele.
Cada um batalha pela sua liberdade.
Cada um segue os seus ideais de liberdade.
E seguem o que isso implica:
O egoísmo das nossas liberdades.
É raro a minha liberdade ser a liberdade do outro.
Todos têm as guerras e pelejam para as ganhar.
Todos têm as suas prisões e querem delas sair.
Seguindo sempre a sua liberdade.
Será que vale a pena uma liberdade comum?
Será a união tão forte para me juntar à liberdade do outro?
A liberdade talvez não o permita.
Ela gosta de sussurrar aos nossos pensamentos
E levar a dela avante.
As minhas liberdades não se dão com as outras.
Gostam da independência de serem únicas na minha cabeça.
Gostam de me dizer: “Segue-me e liberta-me”.
E eu gosto de a seguir. Só ainda não a libertei.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Viajar

Desde os seus primórdios, o ser humano sempre teve uma grande vontade em descobrir novos horizontes, viajando.
No entanto viajar não é só deslocar-se de um local para o outro. Viajar é mais do que isso, é deslocar-se entre culturas, civilizações e estados de espírito inerentes a essas culturas.
Ao viajarmos por certos locais vamos assimilar tudo o que concerne a esse local e gera uma conexão com o mesmo. Se a viagem nos marcou é natural que, cada vez que façamos essa mesma rota, nos iremos lembrar dos sentimentos que ali deixamos. Tudo isto possibilita uma descoberta do outro enquanto ser de outra cultura e também uma descoberta de nós tentando encontrar nos nossos traços de personalidade similitude com o outro. Por exemplo, se eu for a um país africano, onde as condições de vida são paupérrimas e degradantes, irei tomar contacto com esse facto e descobrir o outro, diferente de mim, ao mesmo tempo que me interrogo sobre o que vejo tentando procurar em mim algo para ajudar aquele povo.
Como já referi antes, viajar é descobrir novos sentimentos em cada país que visitamos. É poder fazer coisas novas, em locais novos com pessoas novas que não são passíveis de se fazer onde habitámos, no nosso país. Com a situação acima transcrita advém as marcas de que nos iremos sempre lembrar. Por exemplo, se for a França e nesse país tiver um relacionamento temporário com alguém, onde pude fazer coisas que nunca tive oportunidade de fazer e onde me sinto único e outra pessoa. Irei ficar com vestígios desse caminho sentimental e sempre que me lembrar daquele lugar irei recordar-me das emoções que lá deixei, onde pude descobrir um eu novo e diferente, neste caso.
Assim, viajar é, em concomitância com a deslocação física, uma deslocação espiritual e mental onde me posso surpreender com novas características minhas e de outros.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Loucura e Tela

Não a tela toda, não.
Só metade. Metade da metafísica.
Riscos abstractos e sem nexo.
Ai a loucura abstracta! Como é bela!
Saber que somos loucos, disfarçando o pensamento.
Saber que não tem sentido
E em nós estar todo o sentido.
Não a tela toda, não.
Só um pedaço, menor que metade da metafísica.
Preenchimento de algo, não querendo nada.
Só preencher.
Como se molda a loucura abstracta
À loucura de não querer nada!
Iguais? Não.
A abstracta transmite riscos e figuras escondidas.
A de não querer nada é do ser, não ser nada.
Não a tela toda, não.
Agora nem um pedaço. Só loucura.
Loucura da loucura.
Loucura da loucura é a purificação da loucura.
É absorver a abstracta e o nada.
E depois juntá-los.
O resultado? Só loucura e metafísica.
Pois toda a loucura é um pensamento vadio.
Toda a tela, sim.
Loucura e metafísica em pleno.
Sem pedaços nem metades.
Só o auge do ser humano. Ser e loucura.
quinta-feira, 13 de maio de 2010
A Orquestra

A forma dá azo às linhas onduladas
Num misto de sonho e fantasia.
As barras aparecem e comunicam
Os sentimentos de euforia.
O cordão une o que separa o espaço,
Mostrando a superfície,
Pousada num triângulo de força
Que suporta toda a esperança.
A forma precisa da superfície.
A linha negra avança.
O muro de esperança vai impedindo
O avanço da escuridão.
E é o tracejado. E é a linha.
É o deslizar do destino.
É a sinfonia da mente e da prática
Em harmonia com pontos e riscos.
Tudo contra o negro e o vazio.
É a orquestra do desenho.
sábado, 8 de maio de 2010
A Guerra

Estávamos ali como quem estava no purgatório. Já não importava a família, quem amávamos ou quem simplesmente gostávamos.
O sangue esvaía-se do semblante dos meus companheiros e eu estava translúcido. Não suportava a dor em mim por não esboçar nenhum movimento. Pranteava agora a pujança falecida dos meus colegas.
O inimigo não tinha escrúpulos, (afinal quem ali tinha escrúpulos?)e matava a sangue frio quem a ele se aproximasse.
Senti que aquele era o meu ocaso e a última coisa que tinha dito à minha família tinha sido: "Não preciso de vocês, nem de ninguém. Preciso apenas da guerra."
Nestes meses últimos tinha-me tornado num ser áspero e severo com quem me rodeava. Eu não era aquele nem era da minha família, era da guerra. Ao ouvir esta palavra remeto-me inexoravelmente para o sangue, o sofrimento, a dor de seres que combatem sem saberem porquê que, por tiranos rancorosos, prescindem de qualquer hipótese de futuro. A guerra compele as pessoas que nela entram.
Só pensava na impressão que tinha deixado em Portugal. Um fragor tirou-me aquele raciocínio. Uma bala atravessara a perna de um soldado e punha a descoberto os músculos e ossos daquele ser.
A guerra, meus egrégios, não é mais do que isto. Músculos e ossos a serem alvejados. Nada mais. Sem pessoas, nem almas.
O sangue esvaía-se do semblante dos meus companheiros e eu estava translúcido. Não suportava a dor em mim por não esboçar nenhum movimento. Pranteava agora a pujança falecida dos meus colegas.
O inimigo não tinha escrúpulos, (afinal quem ali tinha escrúpulos?)e matava a sangue frio quem a ele se aproximasse.
Senti que aquele era o meu ocaso e a última coisa que tinha dito à minha família tinha sido: "Não preciso de vocês, nem de ninguém. Preciso apenas da guerra."
Nestes meses últimos tinha-me tornado num ser áspero e severo com quem me rodeava. Eu não era aquele nem era da minha família, era da guerra. Ao ouvir esta palavra remeto-me inexoravelmente para o sangue, o sofrimento, a dor de seres que combatem sem saberem porquê que, por tiranos rancorosos, prescindem de qualquer hipótese de futuro. A guerra compele as pessoas que nela entram.
Só pensava na impressão que tinha deixado em Portugal. Um fragor tirou-me aquele raciocínio. Uma bala atravessara a perna de um soldado e punha a descoberto os músculos e ossos daquele ser.
A guerra, meus egrégios, não é mais do que isto. Músculos e ossos a serem alvejados. Nada mais. Sem pessoas, nem almas.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Ler Ao Serão Na Dinamaca

A porta tombou e iluminou-se
O homem caiu sem saber
A noite era dia
E as casas sapatilhas.
Os olhos escorregavam pela cara
Os lábios já lá não estavam.
As paredes abriam-se de par em par
A voz era gigante e não se ouvia.
Ondulavam os pensamentos
Sonhando a realidade
E afastados da cabeça
Pousada no topo de um prédio.
Os dedos tocam o ar
Sólido com a respiração
Que emana ofegantes luzes
Nuas de sentimento, vestidas de sensação.
O tempo é nulo,
As horas são tijolos,
Os segundos mármore.
Ao meu lado, um círculo grande e redondo.
É persuasivo. É assustador.
Tentador também. Roço-lhe na pele.
Livrei-me dele. Estou são e salvo.
Vai subindo o real pela escada da mente
Desço, passo a passo, medo a medo
Evitando a queda fatal
Que me levaria ao apocalipse.
Sem sentimentos, nem corpo.
Só nada. Aterrei.
Um dia volto.
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