sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Estímulo


Tem Pessoa e Bocage.
Todas as inconsciências conscientes,
Todos os palavrões que líricos se escrevem,
Tem o que sou e outros que não sou.

Tem as águas agitadas percorridas por Gama,
Todos os ciclopes e medusas em mim monstruosos.
Tem as arábias e os orientes perdidos,
Encontrados pelos obscuros ocidentes.

Tem as memórias por outros guardadas,
Tem recordações que à vida fui buscar.
Tem os amores de uma partitura de Mozart,
As idílicas dores de viajar até vós.

Bem-vindos ao meu ilustre pensar,
Que de ilustre tem a morte
E das suas cores nasceu o arco-íris,
Pintado a pincéis de felicidade.

Do núcleo terrestre à atmosfera,
Das voltas á via Láctea e a Andrómeda,
Da evaporação à solidificação, encontrando a condensação,
Todo o fim e início é meu pensamento.

É a tristeza com Da Vinci.
É o esculpir de Rodin nos meus cupidos.
São as minhas surrealistas frustrações
Com a minha imaginação cubista.


É todo este poema, todos os seus versos pensados.
É isto e o que ficou por dizer
Porque queria mais sobre mim escrever.
Mas pensei e doeu-me, terminando onde comecei.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Doentia Falta de Amar


Sinto uma doentia falta de amar.
Não de amar isto ou aquilo.
Apenas de amar.
Apenas o simples facto de dizer “Amo-te”.

Tenho saudades de não sentir esta falta.
Quando estavam comigo os beijos de alguém.
Quando olhava para a vida a amar.

Procurei o amor nas esquinas da paixão.
Mas quiseram vender-mo barato, sujo e falso
Quiseram o meu coração em troca.
Carente, honesto e desajeitado.

Procurei outras experiências.
A fugacidade de milhões de beijos,
A amizade do amor,
O momento que se passa para se perder
O mistério de não se conhecer.

Tudo inútil. Nada como o estéril amor.
Nada como a verdade de se amar.
Agora desisto e sinto esta atroz culpa
Esperando o perdão do amor.

domingo, 28 de novembro de 2010

Errar


Não fui eu, ali.
Não fui quem querias que tivesse sido.
Nunca consegui ser nada.
Iludi-te com a minha desilusão.

Assisti a um outro eu. Não gostei.
Fui um repugnante selvagem.
Não fui os princípios de toda a vida.
Que fiz eu?

Onde estava?
Aproveitei-me de algo que não era meu.
Não resisti aos meus instintos.
Fiz o erro de toda uma vida.

Saí de rastos daquele eu.
E agora que voltei a mim, enojo-me.
Merecia a solidão eterna.
A consciência daquele acto é ainda mais execrável.

Nem valem as desculpas.
Nem vale ter sido de igual modo voluntário.
Nem vale que tu tenhas gostado.
O que vale é que não valho nada.
Absolutamente nada.
Uma porcaria de nada.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Barcelona



Barcelona do meu pais.
Catedral do meu coração.
Sagrada Família da minha alma.
Barcelona do meu amor.

Em ti, Gaudi. Respiro.
Respiro toda a sua obra,
Todo o seu sentimento por ti,
Barcelona de arquitectura.

És as ruas por onde te escondes.
És as pessoas que te descobrem.
És a chuva e o sol que em ti pousa.
És uma, representando todas.

É a ti que escrevo,
É em ti que sou eu.
Só tu, Barcelona do meu olhar,
Me farás jurar por algo eternidade.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Perfeição



Não és paixão, não és amor.
Nem sequer amor platónico.
Nem és todo o meu pensamento sequer.
És simplesmente tu e os teus traços perfeitos.

Pode parecer estranha esta minha fixação.
Mas faz-me bem ver-te. Faz-me bem sentir-te seja de que forma.
Massaja-me a alma e eleva-me a um lugar só meu.
Dá sentido à minha ideia de mulher.

Mas não quero nada desse teu sítio.
Não quero invadir isso por onde andas.
Só preciso de te observar. De aconchegar os olhos.
Só preciso que me dês esse privilégio. Mesmo que não saibas.

Dá-me só mais um sorriso.
Mais um momento de puro conforto.
E enquanto penso em ti, com os olhos,
Vou-me deliciando, esfregando este meu coração.

Ao Porto


Ficas bonita à chuva.
Gosto de te pensar quando chove.
Se outras são feias, tu embelezas-te
Ao simples cair de umas gotas.

Só fazes sentido quando estás cinzenta.
A tradição e os costumes agigantam-se quando estão molhados.
As janelas viradas para um horizonte agitado
Têm já uma beleza fatal perante tamanho espectáculo.

E é a natureza que te põe assim.
Não precisas de mais nada, nem do divino.
Basta que sobre ti caiam todas as águas
Que um homem não pode dar, mas sim admirar.

Gosto de olhar para ti à chuva
Quando te passeias com alarde
Exibindo todas as tuas formas
E deixas que um simples humano
Te possa abraçar e ser tocado no rosto
Pelas gotas da tua beleza.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Dor De Ter De Amar

Andei desaparecido desta morte.
"Está na miséria." Diziam uns.
"Só tem os ratos como amigos." Comentavam.
Pois bem aqui estou. Como sou, como não querem que seja.

O desprezo cai muitas vezes sobre mim.
Mas eu desprezo esses olhares.
Nada valem para mim. São falsos.
O que importa é olhar para a mão e sentir o calor.

Aquele calor esquisito, de quem ao frio nunca esteve.
Aquele calor que quase arrefece de tão quente que podia estar.
Enfim, só confusões em cada das minhas cicatrizes.
Cicatrizes de amor por certo.

Se doença nunca tive. Se quedas também não.
Se são estas cicatrizes de dor, pois bem.
Só na minha vida houve uma única dor.
A dor de ter de amar.

Às vezes penso nessa dor.
Ainda cá está como o calor da mão.
Ainda queima, ainda arrefece. Depende.
Nos dias em que passas, queima.
Naqueles em que não passas, arrefece.

Apesar de dor, é a minha única consolação.
É essa dor de amar que me faz sentir que fiz algo na vida.
Amei alguém. E isso talvez os olhares de desprezo nunca fizeram.
E posso estar a um palmo do nada, posso cheirar o odor da miséria.
Mas eu e tu sabemos de que são feitas estas cicatrizes.
E isso é o que mais me importa. Nada mais.

Nada me fará cair mais do que o que estou.
"Está louquinho. Passou-se de vez." Falavam.
Eu por vezes ria-me.
Tanta miséria neles e eu é que a cheiro.
Tanta falta de amor. Tanta desgraça.
E eu, de camisola rota, vou amando.Em vão, mas amo.
Pois a grandeza de um homem vê-se no tamanho do seu amor.



Martim da Ega